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Num só blog, está tudo aqui! O MORE tem desabafos/opiniões em relação a mim e ao que se passa à minha volta. Tem sugestões de cinema, televisão e não só. E tem mais, muito mais...

25
Nov16

Eu Sou Gay | Episódio 5 | Tenho uma coisa para vós contar

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Tudo começou com um: «Tenho uma coisa para vós contar». E isso deixou-me bastante intrigada. Confesso que fiquei o resto da semana a pensar no que seria e por muito que tentasse não pensar em coisas más, a verdade é que estava muito preocupada. Será que ele iria dizer que estava doente? Que tinha algum problema? Que iria morrer? Meu Deus! Eu sou assim! Dramática por natureza, mas quando alguém começa uma frase a dizer que tem algo para nos contar e depois não conta logo de imediato, eu não tenho como evitar. Na minha cabeça, só consigo pintar maus cenários.

Foi na terça-feira que ele ligou. Já passavam das cinco da tarde e eu tinha levado o meu filho à natação. E enquanto esperava no carro pelo fim das aulas, aproveitei para ler um pouco do livro que andava a tentar ler há semanas. De repente, levando consigo toda a minha concentração, o meu telemóvel começou a tocar. De inicio até pensei em ignorar, pois de há uns dias para cá, a minha cunhada andava constantemente a ligar para meter as fofocas em dia e eu já não tinha mais paciência para isso. Mas quando se é mãe e tem dois filhos, é difícil ignorar o telemóvel. Quanto ao Raul, eu sabia que ele estava bem na natação, mas eu nada sabia em relação ao mais velho, ao Francisco. Sabia apenas que ele estava na escola e com o telemóvel sempre sem parar de tocar, imaginei logo que alguma coisa de ruim tinha acontecido com ele e por isso, larguei o livro, na minha mala procurei o telemóvel, assim que o encontrei reparei que afinal tratava-se do meu pai e sem demoras atendi.

A conversa inicial foi sempre a mesma. Perguntou se eu estava bem, perguntou como é que estavam os seus netos queridos, perguntou sobre o meu marido Afonso, se andava tudo bem no nosso trabalho, enfim, foi a conversa habitual. Mas depois, a conversa começou a ir para um outro caminho. Quando foi a minha vez de perguntar se ele estava bem, ouviu-se do outro lado uns breves e ao mesmo tempo longos segundos de silêncio e foi então que ele disse:

— Eu tenho uma coisa para vós contar. A ti e ao teu irmão.

— Pode falar pai, — disse eu achando o tom da sua voz um pouco estranho.

— Não querida! — disse ele logo de imediato. — Prefiro falar diretamente com vocês os dois. Pode ser?

— Claro pai! Eu estou só à espera do fim das aulas do Raul e depois passo por aí com o Zé.

— Não! — disse ele. — Não tem que ser hoje. Eu aliás já liguei para o José e já combinei com ele um almoço no domingo cá em casa, para estarmos todos juntos. O que dizes?

— Por mim tudo bem! Eu no domingo passo por aí com os miúdos para estarmos todos juntos.

— Eu preferia que viesses só tu! — insistiu ele, deixando-me já muito preocupada. — É que eu tenho uma coisa para vós contar e preferia que para já, estivesses só tu e o teu irmão. Pode ser?

— Sim pai! Claro, mas… Está tudo bem?

— Está querida! É só uma coisa que eu preciso contar, mas não te preocupes, está tudo bem.

— De certeza? — insisti eu na pergunta e mais uma vez, do outro lado ouviu-se um breve e longo segundo de silêncio. Já sabia que depois desse silêncio, ele ia voltar a dizer que sim, que estava tudo bem, mas lá bem no fundo, eu já sabia que não. Algo não estava bem com o meu pai e ele não tinha agora coragem de me dizer ao telefone. Mas depois desse silêncio, ele lá acabou por dizer o seguinte:

— Posso então contar com vocês para o almoço no domingo?

— Sim pai! Nós lá estaremos.

— Então até domingo! — disse ele despedindo-se de mim com um beijinho e antes que eu questionasse seja lá o que fosse, ele de imediato desligou a chamada. Nesse mesmo instante, o Raul na companhia da sua colega Maria entram dentro do carro, mas eu estava tão distraída por causa daquela chamada que quase nem me apercebi disso.

Os dois miúdos sentaram-se da parte de trás do carro, colocaram os cintos de segurança e quando se aperceberam que eu não ligava o carro para irmos embora, o Raul, colocando a sua mão sobre o meu ombro, desperta-me do meu breve transe e só então é que me lembro que tinha combinado com a mãe da Maria, levar-lhe a casa. Cumprimento os dois, mas como eu andava com uma pulga atrás da orelha, não ia conseguir levá-los a casa, sem antes tentar perceber o que é que se estava a passar com o meu pai. Por isso, sem demoras, liguei para o meu irmão Zé. O estúpido lá acabou por dizer que já sabia esse almoço de domingo desde o dia de ontem e nem sequer tinha-se dado ao trabalho para me falar dele. Perguntei-lhe se ele não achava estranho o pai fazer-nos esse convite, dizendo que tenho algo para nos contar. Algo que pelos vistos era importante, pois queria estar só na presença dos filhos. O Zé claro, como já era habitual, começou a gozar comigo. A dizer que eu já estava a ficar preocupada e a criar filmes á toa, pois com certeza, o que ele haveria de contar, não seria nada de banal. Aproveitou ainda para dizer que já que iriamos estar os três juntos nesse domingo, ele iria aproveitar a ocasião para também nos contar algo. De forma a que eu não ficasse ainda mais preocupada, ele achou por bem salientar que o que tinha para contar era uma novidade boa, uma surpresa que todos iriamos gostar, mas não sei, algo estranho se passava e eu não descansava enquanto não soubesse o quê. Insisti com o Zé, pois eu sabia que o meu pai tinha por hábito confidenciar mais com ele e por isso, tinha quase a certeza que o Zé já sabia qual era o assunto que o pai queria nos falar, mas nada, o Zé ou não sabia mesmo, ou então estava a fingir muito bem. E naquele momento, só não insisti ainda mais com ele, pois no banco de traz, tanto a Maria como o Raul já se queixavam que estavam cansados e com fome. Isso fez com que eu desse a chamada como terminada e lá segui viagem.

Aos domingos à tarde, era frequente eu passar sempre na casa do meu pai. Às vezes, se não era para o almoço, era para o lanche. Fazia questão que os meus filhos mantivessem sempre contacto com o avô que eles tanto adoravam. Com o avô que os levava a passear, ao cinema, ao futebol e que os dava tudo e mais alguma coisa sem pestanejar. Desde que os meus filhos nasceram, praticamente sempre que estava com o meu pai, as crianças também estavam juntas e agora, depois de receber esse estranho convite. Um convite direcionado apenas a mim e ao meu irmão, para ir almoçar a casa dele, isso era sinal de que algo estava errado. Algo não estava bem. E durante o resto da semana, eu não consegui descansar enquanto não descobrisse o que era. Perguntei ao meu marido, perguntei aos meus filhos se o avô lhes tinha dito alguma coisa, mas nada. Eles não sabiam rigorosamente nada. Ou se calhar até sabiam, mas não queriam contar, pois na relação de avô e netos, sabia que muitas vezes havia ali segredos que eu desconhecia. O meu marido tentou acalmar-me, dizendo que com certeza não seria nada de especial, mas isso não me convencia. Eu sabia que há umas semanas atrás o meu pai tinha feito alguns exames, tinha feito algumas visitas ao médico e por muito que eu lhe questionasse sobre esses exames, ele sempre dizia que eram exames de rotina e que graças a Deus estava tudo bem com a sua saúde. Será que ele me andava a mentir em relação a isso? Será que ele tinha alguma doença grave e não tinha coragem de nos contar?

Depois desse convite, não houve um único dia até ao domingo, em que eu não tivesse ligado para o meu pai. Houve dias até em que eu liguei para ele duas vezes só para saber se ele realmente estava bem. Para tentar puxar cá para fora o que ele tinha para nos contar, mas não havia como ganhar nessa batalha. Ele não contava rigorosamente nada. Não adiantava nada. Apenas pedia para eu parar de fazer filmes, pois o que ele tinha para contar não era nada de grave, mas isso não me descansava. E depois havia o Zé. Também o Zé tinha algo para nos contar e tinha escolhido esse mesmo dia para contar-nos uma novidade. Mas quanto a ele eu nem estava preocupada. Já estava mais do que cansada das suas novidades. Tinha a certeza absoluta de que a sua novidade estava relacionada com mais uma das suas ideias absurdas para abrir um negócio. Negócio esse que iria depois ser financiado pelo meu pai, pois ele tudo fazia pelo seu filho querido e claro, negócio esse que passado uns meses iria ao fracasso como já muitas vezes tinha acontecido. Por isso, já nem valia a pena preocupar-me com o que quer que fosse que ele tivesse para contar. O importante era o que o meu pai tinha para contar e por causa disso, andei a semana toda em pulgas, de tão aflita que estava.

O domingo lá chegou. Um domingo lindo, que apesar de estarmos em pleno Outono, era um domingo de calor. Um domingo onde o sol brilhava, mas que dentro de mim, uma nuvem bem negra pairava sobre mim, prestes a rebentar depois de ouvir o que o pai tinha para contar. Apesar de termos combinado, que às 13 horas estaríamos os dois em casa do meu pai, eu, numa última tentativa de saber do Zé o que o pai tinha para contar, combinei com o meu irmão encontrarmo-nos no café da esquina, próximo à casa do meu pai. E ao meio dia em ponto, lá estávamos os dois. Pedimos um café e como o tempo convidada a isso, fomo-nos sentar na esplanada. Ali, praticamente implorei para que ele me contasse o que sabia acerca do que o pai tinha para contar, mas ele já cansado desse assunto, num tom agressivo acabou por dizer:

— Para com isso Adelaide! Que stress! Porque é que tens que achar sempre que é uma coisa má o que o pai tem para contar?

— Sei lá! — disse eu tentando arranjar uma desculpa para toda aquela a minha preocupação. — Ele já não é um homem novo. Fez 60 anos há uns dias atrás e…

— E ele é um homem super saudável! — continuou o meu irmão. — Às vezes até acho que ele é bem mais saudável do que eu, bem mais jovem…

— Isso pode ser tudo aparências. — disse eu. — Eu sei que ele andou a fazer uns exames médicos sabias? Por acaso ele alguma vez falou-te do resultado desses exames?

— Não! Não falou! Talvez porque não houvesse nada para contar.

— E se ele tiver um cancro da próstata? — disse eu de rompante, deixando o meu irmão incrédulo a olhar para mim.

— Tu só podes estar doida! — disse ele claramente chateado. — O que é que te levou a pensar uma coisa dessas?

— Sei lá! Ele já está na idade…

— Na idade de quê? — interrompeu-me ele. — Às vezes tenho a sensação de que tu queres ver o pai morto o quanto antes.

— Não sejas parvo José António! — disse eu revoltada com a sua afirmação e quase partindo a chávena de café, quando de imediato largo-a contra o pires. Nada partiu-se, mas o café acabou por transbordar pela mesa. Ao aperceber-se de toda a minha aflição, com o seu olhar eu sei que de imediato ele me pediu desculpas e depois, já mais calma e tentando limpar a mesa com guardanapos, acabo por dizer: — Eu só estou preocupada é isso. Vais-me dizer que não tens reparado o pai estranho nesses últimos dias.

— Não sei! Eu para falar a verdade não tenho visto o pai esses últimos dias, mas… Já paraste para pensar que talvez não há razões para preocupações. Se calhar ele vai apenas dizer que… sei lá! Talvez vai dizer que vai finalmente de férias. Lembras-te de ele ter dito no seu aniversário de que gostava de fazer uma viagem pela Europa?

— Sim! — disse eu tentando-me lembrar do dia em que ele partilhou connosco esse seu desejo.

— Pois então! Se calhar deve ser isso! Se calhar vai perder o medo de andar de avião e viajar por aí.

— Sim mas… — disse eu já com outras preocupações na cabeça. — Se for isso, não deve ser muito bom ele viajar sozinho…

— Caramba Adelaide! — disse ele interrompendo-me. — Até se for isso tu já estás novamente preocupada. Que mal tem se ele quiser andar por aí a conhecer o mundo? Que mania que tu tens de ficar preocupada com tudo. É incrível como tu és igualzinha à mãe, que ficava noites e noites sem dormir por causa das preocupações.

— Preocupações essas que tu não paravas de as dar.

— Ah sim! — disse ele. — Vais-me querer dizer que tu também não estavas sempre a dar-lhe preocupações. Galdéria como tu eras…

— Estúpido! — disse eu, dando-lhe uma palmada bem forte no seu braço. Ele por breves segundos queixou-se da dor, mas depois, olhou para mim, com aquele olhar que eu já conhecia tão bem. Um olhar que dizia para eu acalmar o meu coração, pois tudo estava bem. Sem conseguir hesitar e já bem mais calma, ri-me para ele e ele riu-se também. De forma mais descontraída, continuamos a conversa a rir, a brincar e a tentar adivinhar coisas absurdas que o pai teria para nos contar.

O tempo foi passando e quando de repente o telemóvel do Zé deu sinal de mensagem, apercebi-me então que já estava quase na hora de irmos para casa do pai. O Zé, ao pegar no telemóvel e ao ler uma mensagem, riu-se para si mesmo e depois de responder à mensagem, volta a colocar o telemóvel no bolso e olhando para mim, diz o seguinte:

— E diz-me lá maninha. Também andaste aí super preocupada e sem dormir por causa do que eu tenho para contar?

— Eu quero lá saber do que tens para contar! — disse eu levantando-me da cadeira e indo em direção ao balcão de atendimento, deixando-o sozinho na esplanada.

Enquanto esperava pelo funcionário para fazer o pagamento, olhei para trás e vi o meu irmão, já de pé, a fumar um cigarro e à espera de mim. Naquele momento senti-me mal. Mal por lhe ter virado às costas. Por lhe ter dado a entender de que eu jamais me iria preocupar com o que ele tinha ou não para contar. E a verdade é que sim, eu também em relação a ele estava preocupada. Não de forma tão exagerada como estava com aquilo que o pai tinha para contar, mas estava. Não sabia explicar porquê, mas durante aquele tempinho em que tínhamos estado juntos, tinha reparado que o Zé estava diferente. Havia algo nele de diferente. Só não sabia o quê, mas daqui a pouco já saberia. Faltava pouco para ouvir da boca dele o que tinha para contar e para saber também da boca do meu pai, o que de tão importante ele tinha para nós contar aos dois.

Há hora marcada, estávamos já em casa do meu pai e assim que entrei porta adentro, passou uma avalanche de memórias boas na minha cabeça que me fez ficar emocionada. Aliás, muito antes de entrar em casa, eu já sentia aquele cheirinho agradável que eu tinha a certeza que vinha da nossa cozinha. Um cheirinho bom de Carne de Porco à Alentejana que me fazia muito lembrar da minha querida mãezinha. Quando entrei em casa e senti aquele cheiro, por momentos até achei que a minha mãe ainda estava na cozinha a preparar-nos os nossos pratos favoritos, mas não, o cozinheiro de serviço tinha sido mesmo o meu pai. Ele, que enquanto a minha mãe era viva não sabia nem fazer um ovo estrelado, agora era um verdadeiro Chef de cozinha. Assim que se viu sozinho naquela imensa casa, de forma a conseguir sobreviver, ele não teve outro remédio senão aprender a cozinhar e por isso, um dia, na companhia do Francisco, quando este apenas tinha quatro anos, o meu pai agarrou no livro de receitas da minha mãe e começou a cozinhar. Naquele dia os dois preparar um verdadeiro banquete, com direito a doces e salgados que me fizeram muito lembrar-me da minha mãe. E apesar de ao longo dos tempos o meu pai ter-se aperfeiçoado na cozinha, a verdade é que não havia ninguém que chegasse á altura da minha mãe. E naquele momento, quando entrei em casa do meu pai, na nossa casa, foi como se ela ainda ali estivesse. Como se ela nunca tivesse partido. Pois tanta falta ela fazia. Não só a mim, como também ao meu irmão e claro, sei que o meu pai também sentia muito a sua falta.

E depois de recordar bons momentos, entramos em casa onde fomos de imediato recebidos pelo meu pai, com muitos abraços e beijinhos. Ele ainda estava de avental o que me levou a pensar que ainda estaria atrasado no almoço, mas quando lhe perguntei se precisava de ajuda, ele disse que já estava tudo pronto. Só faltava mesmo colocar a mesa, coisa que de imediato eu me ofereci a fazer, enquanto o preguiçoso do meu irmão, estendeu-se logo no sofá e ligou a televisão para fazer zapping pelos vários canais. Eu ainda o chamei para me ajudar na mesa, mas ele fingiu nem ouvir. Apenas respondeu ao meu pai, quando esse nos perguntou se queríamos tomar algo. Eu preferi não beber nada, mas o Zé lá optou por tomar uma cerveja antes do almoço ser servido.

Na mesa, já estavam três pratos, as talheres, os copos e os guardanapos. Só faltava mesmo dispor os pratos pela mesa e antes de fazer isso, reparei num livro que o meu pai tinha sobre a mesa. Um livro de um escritor americano, que se chamava “Nunca é tarde para o amor”. Fiquei curioso em relação àquele livro que nunca tinha visto cá em casa. Nem sequer tinha sido um de nós a oferecê-lo. Ainda estive para desfolhar algumas páginas, mas quando estava para fazê-lo, o meu pai regressou da cozinha com a cerveja para o meu irmão, e já sem o avental. Deu a cerveja ao Zé e depois, aproximou-se até junto de mim para me ajudar na mesa. Coloquei o seu livro sobre uma estante e sorri para o meu pai, que de imediato retribuiu o sorriso, dizendo:

— Estou muito feliz por ter-vos aos dois aqui comigo.

E eu fiquei feliz por ouvir aquilo. Na verdade, já há muito tempo que não estávamos só os três juntos. A essa hora, se o Raul aqui estivesse, já estaria em cima do avô para lhe contar as novidades e o Francisco, também já iria quer ter toda a atenção do avô para lhe falar do futebol e do Benfica que ambos amavam. E depois, sentados no sofá, o meu marido e o Zé com certeza já estariam a discutir, por razões estúpidas como sempre. Ou seja, com toda a família ali, não estaríamos a ter um momento calmo como o que estávamos a ter. Um momento a três, de pai e filhos.

Assim que a mesa ficou posta, o meu pai foi a cozinha buscar o almoço. Disse que tinha uma surpresa para mim, mas eu já sabia o que era. O cheiro que emanava por toda a sala já denunciava que o meu pai tinha feito aquela Carne de Porco à Alentejana, especialmente para mim, que tanto adorava. O meu irmão, abusado como sempre, mesmo o meu pai ainda não tendo regressado da cozinha, sentou-se à mesa, no mesmo local onde ele sempre se sentava. Em nenhum momento disponibilizou-se a ajudar e quanto a isso, fiz-lhe cara feia quando ele se sentou, mas ele simplesmente ignorou-me. Passado um tempo, o meu pai regressou com uma travessa bem grande com aquela delícia que só pelo cheiro, já dava água na boca. Colocou a travessa no centro da mesa e disse que ia cozinha buscar o resto. Eu mais uma vez ofereci-lhe ajuda, mas o meu pai, independente como sempre, recusou a ajuda, pediu para que eu me sentasse já há mesa, e foi a cozinha buscar o arroz, a salada, a água, o sumo e ainda mais uma garrafa de cerveja para o Zé. Em pouco tempo a mesa estava cheia. Não era propriamente um banquete, mas claramente, era comida a mais para apenas três pessoas.

Com um grande sorriso no rosto, pois aparentava estar feliz com a nossa presença, o meu pai sentou-se à cabeceira da mesa, com os seus filhos, cada um a seu lado. Desejou-nos um bom almoço e deu-nos autorização para começarmo-nos a servir. Eu basicamente ofereci-me de imediato para os servir e enquanto servia o prato do meu pai, o do meu irmão e também o meu, demos inicio aquela habitual conversa de circunstancia. Por mim, aflita como eu ainda estava, preferia que ele fosse direto ao assunto. Que nos esclarecesse logo de uma vez por todas, o grande motivo daquele almoço a três. Mas antes de passarmos ao tema mais delicado, percebi que o meu pai primeiro queria passar algum tempo de qualidade com os filhos. Sem falar em preocupações da vida. Perguntou sobre os netos, como é que eles andavam, se a escola ia bem. Perguntou sobre o Afonso, se o trabalho dele andava a correr bem, se já andava melhor das dores de costa que frequentemente o atormentavam e depois quis saber de mim. Perguntou como é que eu estava, se as coisas na escola e com os alunos andavam a correr bem, enfim, quis saber de tudo. E depois, quando o almoço já se estava a perlongar e tanto eu como o Zé já estávamos a repetir, ele concentrou a sua atenção no meu irmão. Quis saber das novidades que o Zé tinha para contar e foi então, que o meu irmão começou por dizer:

— Eu tenho andado bem pai! Na verdade, tenho andado muito bem. — disse ele com um grande sorriso no rosto. — Eu ainda não vos tinha contado, porque não vós queria criar falsas expectativas mas eu arranjei um trabalho…

E quando ele disse aquilo o silêncio que se seguiu foi total. Tanto eu como o meu pai ficamos surpreendidos a olhar para ele. No meu caso, eu até larguei os talhares no prato e fiquei mesmo incrédula, de boca aberta a olhar para ele. Nem queria acreditar no que ele estava a dizer.

— Na verdade eu já lá estou há dois meses, — continuou ele, deixando-me ainda mais embasbacada com o que dizia. —Só agora vos conto isso porque a coisa está a correr bem. Estou a gostar e acho que é desta, é desta que eu finalmente vou assentar-me.

— Que bom filho! — disse o meu pai claramente feliz. — Fico muito satisfeito por ti.

O meu irmão olhou para mim, na esperança de que eu também lhe dissesse algo, mas o que me saiu da boca foi apenas isso:

— Finalmente! Já não era sem tempo. Afinal de contas, já estás quase com 30.

Ao dizer isso, o meu irmão desviou o olhar, demonstrando não ter ficado nada satisfeito com o meu comentário. O meu pai olhou para mim com um olhar de reprovação e depois, voltando a olhar para o seu filho querido disse:

— O importante é que tu estás bem! E eu sinto isso.

— Sim! Estou bem! Não ganho lá grande coisa, mas já é um começo.

— Claro! — disse o meu pai. — Já fico muito feliz por isso e acho que a ocasião já merece um doce. A não ser que… — disse olhando para mim que ainda dava algumas garfadas na carne de porco — ainda queiras repetir Adelaide?

— Não! Eu já estou bem! — disse eu largando os talheres.

O meu pai levantou-se da mesa, disposto a tirar a mesa e quando me levantei também, para o ajudar, ele fez questão de dizer que não precisava de ajuda. Pediu para que eu ficasse na mesa, a fazer companhia ao Zé, que ele tratava da sobremesa. E foi então o que fiz.

Já sozinhos na sala e achando que devia umas palavras mais calorosas ao meu irmão, olhei para ele e disse:

— Eu também estou muito feliz por ti!

— Obrigado! — disse ele a sorrir para mim.

— Agora percebo o porque de teres dito que tinhas uma boa novidade para contar, uma surpresa.

— Ah não! Mas… — disse ele interrompendo-me. — Na verdade a surpresa não era essa.

— Não?! — disse eu estranhando.

— Eu realmente tenho uma novidade para vos contar.

— Outra?! — disse eu novamente surpresa. — Conta?! Estou ansiosa para saber.

— Não! Espera o pai chegar e eu…

— Vá-la Zé! Conta lá o que tens para dizer. — insisti e por momentos achei que ele não iria falar enquanto o pai não regressasse com a sobremesa, mas depois, com um grande sorriso no rosto, ele começou por falar a boa nova.

— Eu conheci uma pessoa.

— A sério?!

— Sim! E…

Com aquela falta de palavras percebi logo o que se passava. O meu irmão estava apaixonado. Estava com os olhos a brilhar, com as maças do rosto coradas e eu estava feliz por ele. Se havia pessoa que merecia um grande amor, esse alguém era ele. E ele tinha razão quando dizia que tinha uma boa novidade para contar. Aquela era uma novidade e tantas e tenho a certeza que também o pai ia adorar saber. E quando o Zé estava prestes para me contar mais pormenores sobre essa sua relação, o pai entra novamente na sala com uma enorme taça de Pudim de Ovos que coloca mesmo no centro da mesa. Animada, depois de ouvir a novidade da boca do meu irmão, disse logo de imediato.

— Conta-lhe Zé! Conta-lhe as novidades.

— Mais novidades?! — perguntou o meu pai surpreso. — Pensei que já nós tínhas dito tudo.

— Não pai! É melhor sentar-se, pois o Zé tem algo muito importante para lhe contar.

— Calma Adelaide! — disse o meu irmão tentando fugir do assunto enquanto que o meu pai já se sentava, com aquele rosto coberto de curiosidade. — Também não é assim tão importante e para além disso, acho que não é justo. — olhando para o pai. —O pai chamou-nos aqui para nos contar algo, não foi? Pois bem! Vamos deixar o pai primeiro falar e depois eu falo sobre mim, pode ser?

O meu pai acenou afirmativamente com a cabeça e quando percebi que ele ia começar a falar acerca da razão daquele almoço, eu voltei a ficar aflita. Aquela animação causada pelas novidades do Zé, desapareceu por completo e a preocupação estava de volta. Estava preocupada, com medo de ouvir aquilo que não queria e se ao longo da semana eu andava super ansiosa para saber o que tinha o meu pai para contar, naquele momento, de forma a não dar vida às minhas suspeitas, eu deixei de querer ouvir. De imediato, tentei arranjar maneira de fugir do assunto e quando vi aquele pudim maravilho no centro da mesa, concentrei as minhas atenções nele.

— Mas que Pudim maravilhoso! Foi o pai que fez?

Tanto o Zé como o pai olharam também para o pudim e depois o meu pai disse:

— Não! Na verdade, foi aqui a vizinha Dona Celeste. Ela sabia que vocês vinham cá e por isso, ofereceu-se para fazer esse pudim que ela sabe que vocês tanto gostam.

— E parece delicioso! — disse eu.

— Pois! Mas conta lá pai. — disse o Zé. — O pai e a Dona Celeste têm…

— Claro que não! — disse o meu pai, não deixando o Zé terminar a sua frase. — Eu e a Dona Celeste somos só dois grandes amigos.

— Pois! Amigos?! — continuou o Zé. — Eu bem sei que ela passa muitas horas aqui em casa.

— A conversar! — disse o pai. — Eu e ela damo-nos muito bem.

— Vá-la pai! Pode contar a verdade! — insistiu o meu irmão. — Vocês os dois têm um caso não têm? É que se tiverem eu aprovo totalmente. Fazem um lindo casal.

— Não é nada disso José! Eu realmente tenho algo muito importante para vos contar, mas não tem nada a ver com a Dona Celeste.

— Ok?! Então se não é a Dona Celeste é outra, não é?

Com cara de poucos amigos, o meu pai olhou seriamente para o meu irmão, para ele parar de vez com essas insinuações. Depois, olhou para mim que já estava com o coração nas mãos, com receio do ouvir o que ele tinha para dizer e foi então que ele começou.

— Eu quando pedi para cá virem os dois, foi porque eu tenho realmente algo muito importante para vós contar. Algo que vocês precisam saber.

— Eu vou buscar café! — disse eu levantando-me de imediato da cadeira. — Alguém quer?

E em vez de responderem, o meu pai simplesmente agarrou na minha mão, fez com que eu me voltasse a sentar e depois, dando a outra mão ao Zé e a olhar seriamente para nós os dois ele disse.

— Fica Adelaide! Eu preciso contar e tem que ser agora. Já o devia ter feito há mais tempo, mas nunca ganhei coragem para isso. Eu imagino que vocês os dois devam estar preocupados, mas acreditem, não há razões para isso. O que eu tenho para contar não é nada de grave é só…

— Fala pai! — encorajou o Zé, enquanto que eu, com força, agarrei-me à mão do meu pai e esperei pelo pior.

— Eu conheci uma pessoa! — disse o meu pai e por momentos fiquei na dúvida se realmente tinha acabado de ouvir corretamente o que ele tinha dito, pois não era disso que eu estava à espera. Mas à minha frente, o Zé já estava com um grande sorriso no rosto por causa da boa nova e quando o meu pai virou o seu olhar para mim, é que finalmente percebi que sim, eu tinha ouvido bem. O meu pai simplesmente nos queria dizer que tinha conhecido uma pessoa e isso não era motivo para eu ficar com o coração nas mãos. Larguei a mão do meu pai, respirei fundo e disse já mais animada.

— O pai também?

— Também? — disse ele sem perceber o que acabara de dizer. — Também porque?

— É que ainda há pouco o Zé estava a dizer o mesmo.

— A sério? — perguntou o meu pai virando as suas atenções para o Zé. — Conheceste uma pessoa?

— Sim pai, mas… — disse o Zé envergonhado. — Vamos falar primeiro do pai, pode ser? Conta-nos, quem é ela? Como se chama? Eu tinha a certeza que havia mulher aí nessa história.

— Calma! Uma pergunta de cada vez! — disse o meu pai e depois, para começar a falar novamente, foi preciso respirar fundo várias vezes e foi ainda preciso olhar para a foto da minha mãe que estava pendurada na parede. Por momentos, pensei que ele lhe estivesse a pedir permissão para falar daquele assunto. Afinal de contas, desde que a minha mãe tinha falecido, o meu pai nunca tinha falado de outra mulher naquela casa. E já lá iam 12 anos. Doze anos em que ele podia perfeitamente ter arranjado outra mulher, mas que não sei porque, tinha-se deixado ficar apenas com as memórias da minha mãe. E depois, quando achou que já estava preparado para nos contar tudo, ele começou a falar. — Bem Zé! Para começar essa pessoa não é uma ‘ela’. É um ‘ele’.

Ao ouvir aquilo, tanto eu como o meu irmão ficamos chocados. Ficamos imóveis nas nossas cadeiras e apesar do meu pai ter feito uma pausa, na esperança de que disséssemos alguma coisa, a verdade é que tanto eu como o Zé, não tivemos coragem de dizer nada. Apenas olhávamos incrédulos para ele, que de seguida voltou a falar.

— Eu imagino que para vocês, isso possa parecer estranho, mas… Eu conheci uma pessoa há uns tempos atrás. Nós nos tornamos bons amigos, mas com o tempo percebemos que talvez havia mais do que amizade. Ele chama-se Alberto. Tem a mesma idade que eu e também é viúvo e…

Por momentos o meu pai parou. Percebeu, ao olhar para nós, que devia fazer uma pausa para nós conseguirmos digerir aquela informação. Eu por momentos fiquei com o meu cérebro em estado líquido. Não consegui pensar em nada e mesmo que quisesse fazer-lhe questões, não saberia o que dizer. E se eu estava tão chocada com aquela revelação, o meu irmão parecia estar bem pior e a gaguejar, apenas disse:

— Eu.. eu… não estou a perceber. O pai está a dizer-nos que é…

— Apaixonei-me! — disse o meu pai antes que o Zé terminasse o que iria dizer. — Foi isso o que aconteceu!

— Mas como? O pai é homem… — disse o Zé.

— Claro que sou! — interrompeu o meu pai. — Quanto a isso acho que ninguém tem dúvidas.

— O que eu quis dizer é que… — continuou o Zé. — O pi até gosta de futebol…

— Adoro! — disse o meu pai. — Quem me tira o futebol, quem me tira o meu Benfica, tira-me tudo.

— Mas… — continuou o meu irmão, numa tentativa parva de perceber o que dificilmente dava para perceber. — O pai sempre se comportou como um homem.

— E o que é que é ter um comportamento de homem? — perguntou o meu pai, ao que o Zé respondeu de imediato.

— O pai sabe o que eu quis dizer.

— Sim! Até sei! — disse ele. — Mas o que é que tudo isso interessa? Eu apaixonei-me. Foi isso!

— Como é que é possível? Como?

— Aconteceu!

— Como é que de repente um homem, viúvo, com dois filhos, dois netos, se apaixona assim de repente por um homem? — perguntou o meu irmão, tirando da minha boca a mesma pergunta que eu queria fazer, mas que não tinha forças para o fazer.

— E quem é que vós disse que foi de repente? — disse ele e o silêncio voltou novamente aquela sala.

Foi então que eu me lembrei. Não sei porque, mas uma memória de longe voltou ao meu cérebro que permanecia em estado líquido e eu lembrei-me de uma conversa que tive com a minha mãe, na altura quando descobrimos que ela estava com cancro. Lembro-me perfeitamente, que naquela noite, quando ela voltou com os exames na mão e na companhia do meu pai, ela fez-me a mim e ao meu irmão, sentarmo-nos naquela mesma mesa e depois, sem grandes rodeios, apenas nos disse que estava com cancro, já num estado bastante avançado. Lembro-me que o meu irmão se recusou a ouvir o resto da conversa e num misto de raiva e choro, saiu de casa a correr, fazendo com que o meu pai fosse atrás dele. Sem saber o que fazer, fiquei ali com ela. Agarrei forte na sua mão e foi então que ela disse:

— Querida! Eu já não vou estar aqui por muito tempo. Em breve serão apenas vocês e o teu pai e… tu tens que estar sempre do lado do teu pai ouviste? Promete-me que o vais compreender quando ele achar que é o momento certo par falar. Para nunca nos faltar nada, o vosso pai abdicou de toda a sua felicidade. Por isso promete-me que estarás sempre ao seu lado.

Naquele momento, prometi-lhe tudo e mais alguma coisa. Para falar a verdade eu nem tinha prestado muita atenção às coisas que ela dizia. A minha preocupação era só uma, agarrar-me a ela e não lhe deixar partir por nada deste mundo. E ela, em vez de se preocupar consigo, com o seu bem estar, parecia mais era estar preocupada com o meu pai e ainda chegou a dizer:

— O vosso pai é especial. Vocês podem ainda não terem reparado, mas o vosso aí é um homem muito especial.

 

— A mãe sabia? Não sabia? — perguntei eu ao meu pai, fazendo com que o Zé ficasse um quanto confuso.

— Sabia o quê? — perguntou o Zé e o meu pai, olhando novamente para o retrato da minha mãe, voltou a falar.

— Sim! A vossa mãe sempre soube. Eu desde pequeno que senti que era diferente. Naquele tempo, era muito complicado alguém chegar e dizer…

— Que eu sou gay?! — questionou o Zé.

— Sim! Para falar a verdade, naquele tempo essa palavra ainda nem existia. Mas enfim! Eu quando era novo, rapidamente percebi que não era delas que eu gostava. Sentia-me atraído por homens e tentei ao máximo reprimir esse sentimento. Foi então que eu conheci a vossa mãe. Não vós posso dizer que tenha sido amor á primeira vista, porque não foi. Eu e ela tornamo-nos grandes amigos, os melhores. Quando conheci a vossa mãe, ela tinha passado por um momento complicado na vida dela e foi em mim que ela conseguiu superar essas dificuldades. E para ela eu não tinha segredos. Ela sabia que eu era diferente e em nenhum momento condenou-me por causa disso. Quando nos decidimos casar, foi mais numa de brincadeira. Nem eu nem ela tínhamos aquela que química necessária entre um homem e uma mulher, mas nos nós entendíamos. Resolvemos casar, tivemos dois filhos maravilhosos e ficamos juntos até ao dia em que a maldita doença a levou para longe de nós.

Por momentos o meu pai parou o seu discurso e recuperou forças para voltar a falar. Eu e o Zé apenas escutávamos cada palavra que ele tinha para dizer e por nenhum momento tentamos interromper. Aquele era o seu momento e por muito que fosse estranho estar a ouvir todas aquelas palavras da boca dele, ele precisava falar tudo.

— Apesar de casarmos — continuou ele, — apesar dos sentimentos que eu tinha pelos homens, eu quero que saibam que eu amei muito a vossa mãe. Ela foi sem dúvida alguma a pessoa mais importante que surgiu na minha vida. O que eu sentia por ela, não foi nenhum daqueles amores carnais, mas eu amava a vossa mãe. E em nenhum momento a traia, em nenhum momento eu procurei saciar o desejo fora de casa. Sempre respeitei a ele e sempre vós respeitei. E apesar de sempre ter esse sentimento na consciência, o de gostar de homens, a verdade é que nunca estive com nenhum outro homem, senão com ele. Eu quando o conheci, tinha quinze anos, ainda nem sequer conhecia a vossa mãe. Ele era meu colega da escola e um dia, numa daquelas brincadeiras de rapazes lá acabou por acontecer algo, mas… a vida resolveu-nos castigar por isso. Ele mudou-se, nunca mais o vi e a vida deu voltas e voltas até que, quase cinquenta anos depois, a vida fez com que nós voltássemos a encontrar.

— Espera! — disse o meu irmão com os olhos cheios de lágrimas. — O pai está a querer dizer que esse Alberto era o…

— Sim! — continuou o meu pai. — O Alberto era o jovem por quem eu me apaixonei quando tinha quinze anos. Foi o meu primeiro amor. Um amor que a vida fez com que nos afastássemos e que agora, a vida fez com que nos voltássemos a reencontrar.

Dos olhos do meu irmão, vi as lágrimas a escorrer pelo seu rosto e quando dei por mim, também eu estava a chorar com toda aquela história. Só o meu pai continuava sério, sempre a olhar para o retrato da minha mãe com um enorme respeito e a sentir-se leve, bem mais leve depois de contar o seu grande segredo. Respirou fundo várias vezes, com a sua mão limpou o rosto do meu irmão e depois disse:

— Eu vou compreender se depois dessa conversa vocês me quiserem internar num hospício. Afinal eu tenho 60 anos e talvez para vocês, um velho já não tem idade de voltar a tentar a sua sorte no amor mas…

De imediato, o meu irmão agarra na mão do meu pai, agarra-lhe com força e num misto de lágrimas e sorriso, diz para ele:

— Nunca é tarde para amar!

É isso! O livro! Esse era o título do livro que estava sobre a mesa quando logo cedo tinha começado a por a mesa para o almoço. Essa foi logo a primeira pista que o meu pai tinha deixado sobre a mesa, para dizer-me que não havia razões para preocupações. E depois o seu ar de felicidade. Desde o momento em que tínhamos entrado naquela casa, via-se perfeitamente que o meu pai estava diferente. Estava mais feliz, mais leve, mais animado e eu, feito estúpida, só achava que o que ele tinha para dizer era uma coisa ruim, mas… ele só queria falar de amor. Naquele momento não pensei duas vezes. Levantei-me da minha cadeira, aproximei-me dele e sem demoras abracei-o com força. A minha mãe tinha razão quando dizia que aquele homem era especial. Ele era realmente muito especial!

Depois de o abraçar, o meu irmão não hesitou em fazer o mesmo. Juntou-se a nós e por momentos choramos, abraçamo-nos, beijei o meu pai e deixei claro que estava muito feliz por ele. Muito mesmo!

O meu pai, quando se sentiu sufocado por causa do abraço, pediu para que nos voltássemos a sentar e depois, olhando para o Zé, perguntou:

— Está tudo bem?

— Sim! — disse ele. — Não vou negar que ainda estou um pouco confuso com essa história toda mas… Eu só quero que o pai seja feliz! E eu, que já andava a começar a não acreditar em histórias de amor estou agora perante a mais bela história de amor.

— Entre o pai e esse senhor Alberto? — interrompi eu, mas o meu irmão lá continuou.

— Entre o pai, a mãe e sim, entre esse senhor Alberto. Que precisamos conhecer!

— E vão conhecer! — disse o meu pai. — Mas agora chega de lágrimas e vamos adoçar um pouco as nossas bocas, pode ser?

— Concordo! — disse eu e o Zé, antes mesmo de dar como terminada essa conversa, agarrou mais uma vez na mão do pai, beijou-lhe a mão e depois disse:

— Independentemente de tudo, eu adoro-o! Eu amo-o!

O meu pai ficou tão emocionado com aquela declaração de amor que rapidamente foram os seus olhos que se encheram de lágrimas. E antes que começasse a chorar à nossa frente, quis novamente concentrar a sua atenção naquele maravilhoso pudim que estava à espera de ser devorado. Só então é que percebeu que para além do pudim, não tinha trazido mais nada. Nem as taças, nem as colheres de sobremesa e nem uma faca para cortar o pudim. De imediato levantou-se da mesa e recusando mais uma vez a minha ajuda, foi à cozinha buscar o que faltava, deixando-me a mim e ao Zé sozinhos.

Com o guardanapo limpamos o nosso rosto tentando de inicio não cruzar o olhar, mas depois, foi impossível não olhar para ele para saber se ele realmente estava bem com aquelas revelações todas. Ele fez exatamente o mesmo. Olhou para mim e era incrível como os seus olhares diziam tudo. Naquele momento, uma das coisas que dizia era: «Vês! Andaste para aí toda stressada e preocupada para nada. Afinal era uma boa notícia!» E apesar do Zé não ter dito nada disse por palavras ele tinha razão e por isso, quando me lembrei de toda a semana em que andei em pulgas para saber o que tanto queria o meu pai contar, só tive vontade de rir de mim mesma. E foi isso mesmo que fiz. Quando dei por mim, em vez das lágrimas comecei a rir. O Zé não conseguiu conter-se e também ele começou a rir às gargalhadas. Feito duas crianças a quem tinham acabado de dizer uma piada, eu e o Zé riamo-nos às gargalhadas sem parar por causa de toda aquela situação. Quando o meu pai regressou à sala, com tudo o que era necessário para servir a sobremesa, não percebeu nada da nossa atitude. Ficou mesmo confuso e perguntou ainda qual era a piada, para ele se rir também. Foi então que eu lhe contei tudo o que se tinha passado na minha cabeça ao longo dessa semana, desde o dia em que ele tinha ligado para nós a dizer que tinha uma coisa para contar. Falei-lhe que tinha receio de que ele estivesse doente, que tivesse um cancro da próstata, um cancro no pulmão, um temor na cabeça, enfim, tudo tinha-se passado na minha cabeça. Disse-lhe ainda que estávamos a rir porque realmente, eu e o Zé tínhamos colocado a hipótese de que o pai tivesse conhecido alguém e que quisesse casar com outra mulher, mulher essa que eu e ele estávamos mesmo convencidos de que fosse a Dona Celeste, enfim! Quando contei essas coisas ele riu-se connosco. Brincamos com a situação e ainda ficamos mais felizes, quando o Zé lá acabou por contar-nos que tinha conhecido uma mulher. Chamava-se Madalena, tal como a nossa mãe e os dois já andavam a namorar há já algum tempo sem que nem eu nem o pai desconfiássemos disso. Falou-nos que até tinham planos para o casamento e o meu pai ficou super animado. Começou logo a falar em novos netos que em breve iriam chegar e… Naquele momento eu percebi que eramos felizes. Cada um de nós já tínhamos passado por diversas dificuldades, mas agora estávamos ali os três, felizes e a fazer planos para o futuro. Sim! Porque agora, com dois novos membros na família, o futuro ainda iria nos reservar muito coisa.

 

>>> E por hoje ficamos por aqui no que diz respeito a revelações, mas para a semana, temos novamente encontro marcado, com um novo episódio de EU SOU GAY. Entretanto, continuo à espera das vossas histórias. Se gostarias de colaborar com esse projeto (vê as condições de como colaborar aqui…), envia-me a vossa história (real ou de ficção) para blogeusougay@gmai.com. <<<

18
Nov16

Eu Sou Gay | Episódio 4 | A Resposta

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O silêncio incomoda-me. O silêncio assusta-me. Mais ainda quando eu lhe faço uma questão e da sua boca não saem palavras. Sei que ele ouviu muito bem a minha questão. Sei que não existe a necessidade de repetir-lhe, mas só não sei o porque desse silêncio. E isso está a matar-me por dentro. E eu até nem lhe fiz uma pergunta complicada. Para responder à minha questão, bastava apenas dizer ‘sim’ ou então dizer ‘não’. Aqui o ‘talvez’ nem sequer se põe. Fiz-lhe uma pergunta simples, com uma resposta talvez ainda mais simples, mas… ele não responde. Preferiu ficar em silêncio. Será que já cometi um erro? Um erro gravíssimo ao meter-me em coisas que não me dizem respeito? Não! Tudo o que diz respeito a ele, também a mim me diz respeito.

Enquanto que eu estava sentado na minha cama, de olhos fixos a ele e à espera de uma resposta, ele limitava-se apenas em estar sentado na minha cadeira giratória, onde girava sem parar e tinha os olhos postos no seu telemóvel. Não percebi se trocava mensagens com alguém ou se estava apenas a jogar. Seja lá o que estivesse a fazer, àquela sua atitude estava a irritar-me. Se há coisa que eu odeio, é que me ignorem. E não sei porque, depois de lhe ter feito a questão, ele passou a ignorar-me. E eu já estava farto disso! Tinha que acabar com esse silencio perturbador de uma vez por todas. E era agora. Agora mesmo!

— Não vais dizer nada?

Mais uma vez ignorou-me. Continuou na sua, sempre a girar com a cadeira e a divertir-se com o telemóvel.

— Para com isso e diz-me qualquer coisa.

— Eu preciso ir embora! — disse ele finalmente, parando de girar com a cadeira, ficando de frente para mim e arrumando o seu telemóvel no bolso, deixando-me estupefacto com a sua resposta.

— Como assim?

— Tenho que ir. — continuou — Já se está a fazer tarde.

Ele levanta-se da cadeira e por momentos, fiquei com a sensação de que ele iria sair porta fora do meu quarto, sem mais nada dizer e antes que isso realmente acontecesse, com algum esforço levantei-me da cama e meti-me frente da porta.

— Tu só podes estar a gozar não?

Ele parou mesmo à minha frente. Ficou à espera que eu saísse da sua frente para então sair, mas não, eu recusava-me a deixa-lo ir, sem que antes ele me respondesse. Sem que antes ele me dissesse um ‘sim’ ou um ‘não’, se bem que cá por dentro, eu rezava para que ele me dissesse um ‘não’ mas nada, ele não dizia rigorosamente nada.

— Eu fiz-te uma pergunta.

— Eu sei! — disse ele.

— E então?

— E então o quê?

— Não me vais responder?

Ele olhou para mim. Olhou-me nos olhos e não sei explicar, mas algo no seu olhar estava diferente. Ele estava diferente. Tão diferente que já não se importava com as minhas perguntas.

— Eu preciso ir Rui. — disse ele. — Prometi à minha mãe que hoje chegava cedo a casa. Agora se me dás licença eu…

— A sério?! — disse eu ainda mais surpreso com a sua tamanha indiferença. — A sério que não me vais responder?

Ao ver que eu quase nem conseguia equilibrar-me diante da porta, ele gentilmente agarra numa das minhas muletas e entrega-me para eu me apoiar direito. Depois, sorriu para mim. Mais uma vez disse-me para eu ficar bom o quanto antes e sempre de forma bastante educada, depois disse ainda:

— Por favor sai-me da minha frente. Eu preciso ir…

Da minha boca ele já não ouviu mais nenhuma palavra. Com o apoio da muleta, desviei-me da porta e ele de imediato abriu, não sei se era para ir embora e chegar realmente mais cedo a casa, ou se a intenção era fugir à minha questão. Seja qual fosse o motivo, a verdade é que ele estava mesmo a ir embora, mas não sem antes dizer ainda:

— Vê se descanas e depois a gente amanha fala…

E saiu. Deixando-me triste. Deixando-me confuso. Deixando-me assustado e… o que tinha sido aquilo? Porque é que ele não respondeu. Porque? O que foi que eu lhe tinha feito para ele me tratar assim, com tanta indiferença?

Eu e o Carlos já somos amigos de longa data. Muito antes de eu e ele nascermos e ficarmos inseparáveis, já as nossas mães eram as melhores amigas uma da outra. Elas tinham-se conhecido no secundário, tinham ido juntas para a faculdade, tinham arranjado namorados na mesma altura e mais tarde casaram-se, compraram um apartamento no mesmo prédio, ficaram grávidas na mesma altura e eu e o Carlos tínhamos nascido com alguns dias de diferença. Por isso, a minha amizade com o Carlos já vinha de longe. Desde que nascemos, tornamo-nos inseparáveis. E mesmo agora, que a sua mãe se tinha divorciado e arranjado uma outra casa a cerca de meia hora de distância da minha, eu e ele estávamos sempre juntos. Continuávamos a frequentar a mesma escola e desde a primária que eramos colegas de turma. Hoje, tanto eu como ele já tínhamos 16 anos. Ambos tínhamos passado para o 12º ano e apesar da amizade entre nós continuar firme como uma rocha, eu sentia. Sentia que aos poucos algo andava a ficar diferente. Não sabia se era eu, ou se era ele que estava diferente, mas… acho que era ele. E o facto de não responder à minha questão, já dava provas de que sim, ele estava diferente. E isso deixava-me confuso. Deixava-me assustado. Deixava-me triste pois ao contrário dele, que tinha uma série de outros amigos, eu tinha uma enorme dificuldade em criar outros laços de amizade. Se ele por algum motivo que fosse, desaparecesse de repente da minha vida, eu ficaria completamente só. Perdido no mundo. Sem amigos, sem conseguir respirar, sem conseguir andar, sem conseguir viver. Meu Deus! Que drama! Sim! Sou dramático! E neste momento, qualquer cenário que pinto na minha cabeça, tem sempre o mesmo resultado. Já não somos crianças. Estamos a crescer e a tornarmo-nos uns verdadeiros homenzinhos e por isso, mais cedo ou mais tarde, cada um vai para lados opostos. E a sua falta de resposta já diz isso tudo. Por muito que me custe, eu sinto que enquanto eu continue em frente para o sul, ele encontrou algo diferente e talvez melhor, lá para os lados do norte.

Ao contrário do Carlos que é o popular lá da escola e o melhor jogador de futebol, eu e o desporto nunca fomos lá grandes amigos. Por isso, já seria de se esperar que eu fosse um zero à esquerda no que diz respeito ao futebol. Sempre que possível tento evitar jogar, pois graças a ele, um dia quase parti a cabeça, já tive quase para partir o braço por ser tão desastrado no campo e no último dia de aulas, o pior realmente aconteceu. Para decidir quem era a melhor turma a jogar futebol entre o 11ºA e a minha turma, o 11ºB, foi organizado um torneio de futebol. O professor de Educação Física, que era o mesmo em ambas as turmas é que organizou tudo. Iria ser uma partida amigável, apenas para acabar de uma vez por todas com a rivalidade que sempre houve entre as duas turmas, ao longo de todo o ano. Inicialmente iria ser um jogo misto, onde ambas as equipas tinham que ter elementos masculinos e femininos, mas ninguém gostou dessa ideia do professor. Os rapazes recusavam-se jogar com as meninas, dizendo que elas só iram atrapalhar e as raparigas, não queriam perder a oportunidade de estar nas bancadas, na primeira fila, a ver os mais populares e os mais desejados da escola a jogarem futebol, de t-shirts coladas ao corpo, de calções mostrando aquelas pernas fortes e vendo-os suar, a transpirarem sensualidade e erotismo por todos os lados, pois na verdade, muitos dos mais desejados por elas da escola, estariam naquele campo a jogar. E como é óbvio, eu não estava escalado para esse torneio. Primeiro porque não era popular o suficiente, segundo porque nenhuma das raparigas estaria interessado em ver-me jogar e o mais importante mesmo é que eu não sabia jogar. Comparando com os outros elementos da equipa da minha turma, eu nem chutar a bola conseguia, mas por incrível que pareça, lá fui parar ao campo. O torneio seria de um jogo amigável – que mais à frente mostrou-se não ser nada amigável – entre cinco a cinco. O problema, é que o quinto elemento da minha turma resolveu faltar à ultima da hora e não havia mais nenhum rapaz que quisesse jogar. Todos estavam era desejosos para irem para casa, dar inicio às férias e por isso, acabou por sobrar para mim. E como por hábito, nunca recuso nada do que o Carlos pede, assim que ele pediu – ou melhor, implorou – eu lá acabei por aceitar fazer parte daquela loucura. E digo bem! Foi mesmo uma loucura! Eu fiquei na defesa na esperança de que os meus companheiros não deixassem ninguém se aproximar de mim e pelo menos, durante a primeira parte do jogo, tudo estava a correr bem. A minha equipa tinha já marcado dois golos, um deles marcado pelo Carlos. Golo esse que o Carlos festejou de maneira muito especial. Um golo que foi dedicado a alguém que estava euforicamente a assistir nas bancadas. Alguém que nem sequer era daquela escola, que nem sequer devia lá estar mas que mesmo assim, fez com que o Carlos marcasse um golo em sua honra e sim! Foi durante esse jogo estúpido que eu percebi que as coisas começavam a ficar diferentes. Foi durante esse jogo que eu percebi que tanto eu como ele estávamos a caminhar em direções opostas. E isso tirou-me do sério. Tirou toda a concentração que eu já nem tinha naquele campo, ao ponto de nem sequer perceber que de repente, a bola para por entre os meus pés. E agora? O que é que eu faço? Nem tive tempo para pensar. Quando dei por mim, o brutamontes do Beto, o popular da outra turma, aproxima-se de mim e sem dó nem piedade, dá um valente pontapé no meu pé. Sim! Em vez de acertar na bola, o brutamontes-estúpido-zarolho, acertou com toda a força no meu pé, ao ponto de fazer-me cair e a ver estrelas. Ele mais tarde, já no hospital, depois do jogo ter terminado de imediato, pediu-me desculpas e disse que foi sem querer. Mas eu não acreditei nas suas palavras. Eu não ia com a cara dele, assim como ele também não ia com a minha. Por isso, quando pediu desculpas por ter partido o meu pé, eu não acreditei nas suas sinceras desculpas. Fiquei com uma raiva dele que só me apeteceu partir-lhe todo. Graças a ele, o meu verão ia ficar completamente arruinado. E logo agora, que eu e o Carlos tínhamos tantos planos para esse verão, eu estava com o gesso no pé. Um gesso que me ia acompanhar diariamente, por todos os meus dias de férias mas… O pior não foi o gesso. O pior não foi a dor que eu senti ao ver o meu pé partido. O pior não foi a raiva que tive do Beto por me ter feito aquilo. O pior mesmo foi o Carlos. O pior foi mesmo o meu melhor amigo, em vez de ficar ao meu lado no hospital, ter optado por ficar com a pessoa a quem ele tinha dedicado o golo. O pior, foi ele não ter sido o primeiro a assinar o meu pé engessado, porque naquele dia, tinha optado por ter uma tarde diferente com alguém que não era eu. O pior de tudo, foi eu ter-lhe feito uma pergunta e ele não ter dado uma resposta. E agora? Será que ele irá continuar a ser o meu melhor amigo?

Depois do dia em que lhe fiz a pergunta no meu quarto, o Carlos praticamente sumiu da minha vida. Eu tinha-lhe feito a pergunta numa quinta e depois, apesar dele ter dito que a gente depois se falava, a verdade é que ele não apareceu mais em minha casa. Não ligou. Não mandou mensagens pelo whatsapp. Não deu sinal de vida. Nem nesse dia, nem na sexta. Nem mesmo no fim-de-semana tive noticias dele. Na segunda nada. Na terça muito menos e na quarta foi igual. Ele simplesmente desapareceu. Não deste mundo, pois através do facebook eu via que ele continuava neste mundo e a ter uma vida que aparentemente estava a ser super animada. Ele tinha era desaparecido da minha vida. Tinha-se esquecido de uma promessa que ambos tínhamos feito quando tínhamos apenas oito anos. Tinha-se esquecido de tudo e agora, só estava era na companhia desses novos amigos. Novos amigos que nem sequer eram da nossa escola. Amigos com quem ao longo dessa semana, ele tinha ido à praia, tinha ido à piscina, tinha ido ao cinema e até tinha ido ao Jardim Zoológico e retratado todos esses momentos na sua página do facebook. Enquanto que eu, no meu quarto sofria não só por causa das dores no pé, ele divertia-se sem nem sequer se lembrar que eu existia.

Houve um dia em que eu até tentei sair de casa para ir bater-lhe à porta, mas não consegui. Por muito que tentasse, eu não conseguia ajeitar-me com aquelas moletas. Estava furioso, revoltado, mas não havia nada que eu pudesse fazer. E apesar de em casa todos encherem-me de mimos, desde o meu pai à minha mãe que estavam ambos mais carinhosos comigo, desde à minha irmã mais velha, que tinha abdicado de uma semana de férias no Algarve com as suas amigas da faculdade para estar comigo, até à minha irmã mais nova, que sempre que podia, estava enfiada no meu quarto e fez-me ver com ela, todos os desenhos animados da Disney que ela já tinha visto centenas de vezes. Apesar de em nenhum momento estar sozinho, pois até o gato chato da minha irmã que me odiava, agora não parava de fazer-me visitas ao meu quarto, a verdade é que eu sempre me sentia sozinho. E sentia-me culpado por isso. Talvez se eu não o obrigasse a dar uma resposta, ele não teria fugido. Não teria se afastado. Talvez ter-me-ia dito algo naquela noite. Ter-me-ia convidado para ir a praia, à piscina ou ver os animais. Talvez se eu não tivesse perguntado, ele teria feito de tudo para me incluir nas suas férias. Teria arranjado uma cadeira de rodas se fosse preciso, apenas para ser mais fácil eu movimentar-me ou então, ter-me-ia levado às cavalitas, tal e qual como fazia quando ambos brincávamos quando eramos miúdos. Ele sempre foi mais forte do que eu. E para provar que era mais forte, muitas vezes levava-me às cavalitas até ao 3º andar do meu prédio. Um prédio que não tinha elevador e que por morar no último andar, teria que subir imensos degraus até chegar a casa. E preguiçoso como eu era, isso sempre foi um verdadeiro tormento para mim. Até hoje ainda é! Mas quando eramos crianças, eu e ele subíamos as escadas até ao 2º andar que era onde ele morava e depois, já cansado – ou a fingir que estava cansado – eu dizia sempre que não aguentava mais. Não aguentava subir mais escadas e ele, sempre sem pestanejar, pedia para eu subir às suas cavalitas e levava-me até à porta de casa. Fazíamos isso quando eramos miúdos, quando ambos tínhamos oito, dez anos. No entanto, há uns meses atrás ele fez o mesmo. Já nem me lembro porque, mas naquele dia eu estava super cansado. Estava a morrer e já nem conseguia dar mais um passo. Ao ver-me assim, ele pediu para eu subir para as suas cavalitas e sem hesitar, levou-me do rés do chão até ao terceiro andar. Em nenhum momento demonstrou estar cansado, demonstrou não aguentar mais, apesar de eu estar bem mais pesado do que quando tinha apenas oito anos, em nenhum momento ele parou para desistir de me carregar. Passo a passo ele levou-me até à porta de casa e… isso foi apenas há uns dois meses atrás. E dois meses depois tudo mudou. E tudo por causa de uma pergunta.

Quando fez uma semana certa em que ele simplesmente desapareceu da minha vida, assim do nada, ele reapareceu. Já era noite. Eu estava no meu quarto super furioso, pois para além do calor que não me deixava dormir, andava com umas comichões horríveis por causa do gesso. Por momentos, só tinha mesmo vontade de arrancar o meu pé. Não me importava de ficar manco a vida toda. Só para não ter aquelas comichões, eu agarrava num machado e a sangue frio arrancava aquele maldito pé que só estava a arruinar a minha vida. Mas tudo isso passou quando de repente ouvi o toque do meu telemóvel. Sem demoras peguei nele, pois lá bem no fundo sabia que tinha acabado de receber uma mensagem e não estava errado. Só mesmo ele é que me mandaria mensagens já passado da meia noite. Abri o whatsapp e sim, ele tinha finalmente enviado uma mensagem. Ao fim de uma semana em silêncio ele deu sinal de vida. Um sinal que se converteu numa mensagem que apenas dizia «Sim!» Sim o quê? Não percebi a sua mensagem. Será que ele tinha enviado aquela mensagem por engano? Será que ele andava a teclar com a outra pessoa e por engano, acabou por escrever-me um ‘sim’. Não percebi! Inicialmente tentei ignorar mas não consegui. Enviei-lhe logo uma mensagem de resposta.

«Sim, o quê?»

«Sim!» respondeu ele de imediato, acrescentando logo de seguida: «Sim! É a resposta à tua pergunta.»

Incrível! Uma semana depois ele finalmente responde. Responde com um simples ‘sim’. Sim esse que eu já sabia. Sim esse que eu desejava tanto ter lido um ‘não’. E apesar de aquele sim ter tido efeitos devastadores no meu coração, eu já estava à espera disso. Depois de ler a sua mensagem, engoli em seco e fiquei sem saber o que fazer. Será que lhe digo mais alguma coisa? Ma o quê? Depois desse sim, eu não sabia mais o que dizer. Só sei que agora sim, tenho a certeza a cem por cento que tudo mudou. Já nada vai ser como dantes. Eu para ele, deixei de existir. E quando achei que não haveria mais nada para dizer um ao outro, o som de uma nova mensagem assusta-me, acordando-me do meu transe. Leio de imediato a sua nova mensagem que diz o seguinte: «Estás chateado?»

Se estou chateado? É claro que estou! Ele quebrou a nossa promessa. Mas é mais claro ainda que eu não fui capaz de lhe responder assim. Simplesmente escrevi: «Chateado?! Porque é que eu havia de estar chateado?»

«Porque eu te conheço», disse ele acrescentando de seguida «talvez melhor do que ninguém e sei que esse ‘sim’ magoou-te, verdade?»

«Magoado estou eu por causa da perna» escrevi eu «Não tenho mais nenhuma razão para estar magoado.»

«Mentes», respondeu ele de imediato. E sim! Ele tinha razão. Eu estava chateado. Magoado, mas não queria de forma alguma dar-lhe a entender isso. Ainda pensei responder contestando a sua afirmação, mas não fui capaz. Estava tão magoado com tudo isso que qualquer coisa que eu escrevesse, iria simplesmente soar a mentira. Iria simplesmente fazer com que ele visse, através de uma mensagem escrita, que os meus olhos estavam cheios de lágrimas e isso eu não queria. Apesar de eu e ele sabermos que eu não era forte, naquele momento era essa a imagem que eu queria passar. Fingir que aquele ‘sim’ não me tinha afetado nem um pouco. Mas afetou-me. Por causa daquelas três letrinhas, eu vi diante dos meus olhos, o meu mundo chegar ao fim. Os meus sonhos serem rasgados como uma simples folha de papel. Tudo acabou. E agora? Eu precisava arrancar essa dor que tinha no meu peito e por isso, recusando-me a trocar mais mensagens com ele, simplesmente escrevi «Já é tarde. Estou cheio de dor. Vou morrer». Mas não! O que escrevi foi apenas «Já é tarde! Estou cheio de sono. Vou dormir.» E larguei o telemóvel na minha mesinha de cabeceira.

Que estúpido que eu fui. Porque? Porque é que eu perguntei? Do que vale perguntar algo do qual nós já sabemos a resposta? Melhor seria se eu tivesse ignorado tudo o que se passava a minha volta. Ignorava e assim, tudo se mantinha igual. Na verdade, nada ficava igual, mas pelo menos assim, acho que a dor seria menor. E porque é que ele respondeu? Ele já sabia que eu sabia. Porque é que ele ainda fez com que a minha dor fosse maior? Porquê? E com tantos porquês, agora até pareço a minha irmã Sofia que tem apenas cinco anos e a toda a hora está a perguntar o porque de tudo. Eu sei que um dia, mais cedo ou mais tarde, todos nós passamos por isso mas espero muito sinceramente que ela nunca chegue a perguntar o porque, dessa dor que a gente sente no coração, quando alguém que nós é tão próximo, afasta-se assim de repente.

E depois daquelas mensagens, o calor já não incomodou mais. Esqueci-me por completo que tinha um pé aflito de comichões. Esqueci de por o meu coração a bater, a bombar sangue pelas veias. Esqueci-me de dar ar aos meus pulmões, esqueci-me de respirar. Esqueci-me de viver e só me lembrei de morrer.

Só acordei para a vida na manha do dia seguinte. Bem! Para falar a verdade, quando acordei já não era manha. Já passavam das 13 horas quando de repente, comecei a ouvir alguém a mexer no meu computador. Achei logo que fosse a Sofia, que agora andava viciada num jogo de princesas que tinha encontrado na internet mas não, quem estava no computador não era ela. Nem mesmo era a minha mãe, que agora tinha a mania de vir procurar receitas pela internet. Eu ainda esfreguei os olhos, achando que estava a sonhar, que estava a ainda a dormir mas não. Não era um sonho.

— O que estás a fazer?

Assim que me ouviu, ele girou a cadeira para ficar de frente para mim e disse:

— Desculpa! Não te quis acordar.

Apesar de ter a certeza que não era um sonho, todo aquele momento estava a ser estranho demais. Estava a ser surreal. Eu ali, talvez ainda com ramelas nos olhos, uns olhos que provavelmente estavam cheios de olheiras, vermelhos por terem jorrado litros e litros de água durante a madrugada e ele ali, a minha frente, a mexer nas minhas coisas e pior, a ver uma pasta pessoal que eu tinha no meu computador. Uma pasta repleta de fotos. Uma pasta de fotos que me fez congelar a olhar para elas. O Carlos de imediato percebeu todo o meu constrangimento. Olhou novamente para o computador e foi percorrendo algumas das centenas de fotos que estavam nessa pasta pessoal. E depois parou numa foto. Ampliou a imagem e ficou a olhar para ela. Era uma selfie que eu tinha tirado há uns meses atrás. Uma selfie em que eu estava a fazer algo que eu não devia, algo que naquele momento me envergonhava. Algo que fez com que eu quisesse fugir dali a correr. Que fizesse com que um buraco abrisse na minha cama e me leva-se para as profundezas do inferno mas não. Nada disso aconteceu. Tive que enfrentar aquele momento. Um momento, onde na enorme tela do computador, estava uma fotografia onde eu dava um beijo na boca do Carlos. Um beijo roubado numa noite em que eu tinha ficado a dormir na casa dele e onde ele dormia que nem um príncipe. Um beijo que eu tinha feito questão de marcar para a vida toda, ao tirar uma selfie desse momento. Meu Deus! É agora que eu vou morrer!

Sem nem olhar para mim, apenas bastante concentrado a digerir aquele momento fotográfico, o Carlos passado um tempo termina com aquele momento de silêncio dizendo:

— Tens aqui muitas fotos que eu não tenho. Tens que me passar algumas delas quando puderes.

«Sim! Eu passo! Mas agora por favor, não te zangues comigo.» Tentei dizer-lhe, mas da minha boca nada saiu. Não tinha palavras para dizer-lhe seja lá o que fosse. Estava envergonhado com aquele momento, mas a situação piorou quando de repente, ele minimizou a foto e maximizou uma página do Word. Uma página que não era uma página qualquer. Era uma página com uma carta. Uma carta que em tempos escrevi, que nunca tive coragem de imprimir e nem mesmo enviar ao seu remetente. Uma carta que ele jamais poderia ter encontrado, jamais poderia ter lido mas… Ele encontrou! Ele leu! E com o scroll do rato, foi descendo, descendo por todas as palavras e linhas que eu tinha escrito, até parar num paragrafo. Um paragrafo que estava diferente. Continuava com as mesmas palavras que eu tinha escrito, mas estava diferente. Três palavras estavam sublinhadas, três palavras estavam a vermelho e a negrito. Três palavrinhas apenas que estavam em letra bem grande, ao ponto de eu, mesmo da minha cama, conseguir ler o que ali estava escrito: EU-SOU-GAY. E depois, deixando o computador com essa grande declaração estampada no monitor, gira a cadeira ficando novamente de frente para mim, pega num saco que tinha no chão e que eu ainda nem tinha reparado nele e entrega-me.

— Toma! É para ti! — disse ele esticando o saco para mim. E eu ainda estava sem saber o que dizer. Sem saber como reagir. Continuava a desejar que um buraco se abrisse no chão e me levasse para bem longe dali, de toda aquela vergonha. E ao perceber que eu nem conseguia esticar o braço para receber o seu saco, ele disse de seguida: — Vá-la! Agarra de uma vez por todas no saco. Prometo que ele não te vai morder.

E disse-o de uma forma carinhosa. A sorrir para mim. Com aquele mesmo olhar de amigo que sempre foi. Mas nem por isso eu tive coragem de pegar no saco. E ele, cansado dessa minha falta de reação, com o saco na mão, levanta-se da cadeira giratória e vai sentar-se na minha cama, mesmo ao meu lado. Agarra na minha mão, e obriga-me a agarrar no saco dizendo:

— Queres fazer o favor de aceitar esse meu presente?

«Presente?!» Porque é que ele havia de me estar a dar um presente? Não fui capaz de dizer nada, mas não tive como não agarrar no saco. E de dentro do saco, eu com todo o cuidado, com todo o medo, tiro de lá um pequeno peluche. Mas não era um peluche qualquer. Um peluche que com certeza ele tinha comprado na sua recente visita ao Jardim Zoológico. Um peluche que trazia muitas recordações. E boas. Era uma linda girafa. Uma girafa que era e sempre foi o meu animal favorito.

— E então? Gostaste? — disse ele, mas nem sequer esperou pela minha resposta. De imediato, continuou a falar. — É igualzinha à Girafa Sofia, não é?

Sim! Era igual. Igualzinha à Girafa Sofia, a Girafa que há uns bons anos atrás, a mãe dele tinha-me oferecido num dos meus aniversários e que eu não largava por um segundo. Mas isso já foi há tanto tempo. Talvez tínhamos ambos cinco anos e eu não conseguia passar um dia sem aquela girafa. Uma girafa que ao contrário do que acontecia com o Carlos, a ela eu podia contar tudo. Podia contar-lhe todos os meus segredos. Uma girafa que desde os meus cinco anos, sempre soube aquilo que eu era e sempre guardou segredo em relação a isso. O segredo foi tão bem guardado que nem mesmo na hora da sua morte, quando o cão Thomas, do Carlos, arrancou-lhe o pescoço e com os seus dentes a desfez por completo, nem mesmo nessa hora de dor ela revelou qualquer segredo que fosse. Uma Girafa que me fez chorar uma noite inteira por causa da sua morte, mas que com isso, fez com que eu tivesse dormido lado a lado com o Carlos. Numa noite triste em que ele, apesar de tão novinho, não mediu esforços para me tentar animar. Para enxaguar os meus olhos cheios de lágrimas e para encher o meu coração de amor. Uma Girafa, que um dia, quando a minha mãe disse que estava grávida, foi o Carlos que disse para eu pedir à minha mãe, que desse o nome de Sofia à minha nova irmãzinha, em homenagem a uma boneca que já havia partido há imenso tempo. E agora. Anos depois, pelas mãos do Carlos, a girafa volta à minha vida.

— Assim que a vi na loja do zoo eu não resisti — disse ele, — tive que comprar. Tinha que te dar esse presente e eu espero que gostes.

E é claro que eu gostava! Ao longo desses nossos 16 anos de amizade, o Carlos já me tinha oferecido imensas prendas, mas aquela era sem dúvida a mais especial. Tão especial que eu, apesar de achar que estava seco por dentro e já não tinha mais lágrimas para chorar, de repente as lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto a baixo. E o Carlos, ao ver essa minha explosão de emoção, não hesitou. Com a sua mão, tentou mais uma vez enxugar os meus olhos mas eu não conseguia aguentar ter ele ali, lado a lado comigo e a tocar no meu rosto. Com receio de não conseguir resistir, afastei-me da sua mão. A chorar, agarrei-me à girafa com força. Abracei-lha como se ela fosse a única coisa que eu tivesse nesse mundo mas eu estava enganado. Eu tinha muito mais. E ao afastar-me da mão que iria enxugar o meu rosto, o Carlos sem hesitar teve uma atitude que eu não esperava. Abraçou-me! Abraçou-me com força e todo o meu corpo tremeu. Mas tremeu por pouco tempo, pois logo deixei de tremer. O Carlos tinha esse efeito em mim. Quando estava com ele, nunca havia razões para ter medo. Nem nunca sequer havia razões para tremer. Podíamos estar ambos no polo norte, que eu tenho a certeza que para não me ver tremer, ele era bem capaz de me dar o seu casaco, o seu gorro, o seu cachecol, apenas para eu não sentir frio. E esse seu abraço deu-me segurança. Deu-me a certeza que afinal estava tudo bem. Sim! Para quê tremer se depois de ele ter visto as centenas de fotos que eu tinha dele no meu computador, se depois de ele ler a carta que eu tinha escrito e que destinava-se a ele, o Carlos mesmo assim estava ali, ao meu lado e a abraçar-me.

— Desculpa! — disse ele abraçando-me cada vez com mais força. — Desculpa se quebrei a nossa promessa.

Uma promessa que ambos tínhamos feito, quando pela primeira vez tínhamos beijado uma menina na escola. Tinha sido através daqueles jogos parvos que as crianças têm por norma fazer. A ele, tinha caiado beijar a Marta e eu a Mafalda. E quando chegamos a casa, arrepiados por causa dos beijos, prometemos um ao outro que nunca mais iriamos passar por aquela experiência horrível. Que jamais iriamos gostar daqueles seres estranhos que eram as raparigas. Que jamais iriamos largar um, para ficar com uma delas. Promessa essa que eu sei que foi quebrada mais cedo do que eu esperava. Com o tempo, quando começamos a crescer e os nossos corpos a mudar, o Carlos passou a gostar dos beijos desses seres estranhos. Teve algumas admiradoras, posso até dizer que teve algumas namoradas, mas era coisa que durava pouco. Uma semana no máximo. Tinha fama de conquistador e para mim, desde que ele não oficializasse realmente um romance, nenhuma das suas conquistas incomodava-me. Pelo menos até agora. Agora a promessa tinha sido quebrada mas de uma forma mesmo muito drástica.

Ao perceber que me apertava com força, o Carlos deixou de abraçar-me para que eu pudesse respirar e depois, não hesitou em continuar a falar.

— Quando há uma semana atrás tu me perguntaste se eu estava a namorar eu não respondi. Não respondi porque tive muito medo que sofresses por causa disso. E eu não quero que sofras. Em nenhum momento mas… — e um sorriso ainda mais lindo invade o seu rosto — Ela é diferente. Eu gosto dela. Ela me entende, ela gosta das mesmas coisas que eu, das mesmas coisas que nós e… tenho a certeza que tu também vais gostar dela.

Depois de abrir o seu coração e dizer que estava perdidamente apaixonado pela Patrícia, ele olhou para o monitor. O mesmo monitor que em letras grandes e vermelhas, não parava de dizer EU-SOU-GAY.

— Eu sei! — disse ele olhando para o monitor e depois para mim. — Na verdade eu sempre soube. Desde pequeno que eu soube que sim, tu eras diferente. Que sim! Tu vias-me de maneira diferente, mas não interessa. Tu para mim és o Rui. O mesmo Rui de sempre e…

E quando parou de falar, não sei o que aconteceu. Olhou para mim. Olhou-me nos olhos e sem que eu estivesse à espera, teve mais uma das suas inusitadas atitudes. Beijou-me! Mas não! Não foi um beijo na face como já muitas vezes tinha acontecido. Foi um beijo nos lábios. Sim! Ele roubou-me um beijo. Um beijo que durou poucos segundos, mas que foi um beijo. Um beijo estranho. Que logo depois deixou de haver beijo e foi ele próprio que disse:

— Estranho! Eu gosto muito de ti mas tu para mim és como um irmão que eu nunca tive. És o meu melhor amigo, és parte de mim e… esse beijo não faz sentido! Desculpa, mas não faz.

Sim! Aquele beijo não fez mesmo sentido, mas eu gostei. Foi a primeira vez que recebi um beijo. Não daqueles beijos em jogos de crianças. Foi mesmo um beijo, onde os seus lábios carnudos tocaram no meu. Onde ainda consegui sentir o sabor da sua boca, um sabor suave a menta e que eu tinha gostado mas… tinha sido mesmo estranho.

— Eu vou estar sempre ao teu lado — continuou ele — mas como amigo. Nunca mais do que amigo, entendes.

E afirmativamente eu abanei a cabeça.

— Eu não quero que sofras. E eu sei! Eu tenho a certeza que um dia tu vais encontrar um rapaz que irá encher o teu coração cheio de amor mas… desculpa. Esse rapaz não sou eu.

— Eu sei! — disse eu finalmente abrindo a boca para falar. — Na verdade sempre soube e…

— Ficas bem em relação a isso? — interrompe-me ele.

Mas aquela era uma pergunta que eu talvez não sabia responder. E em vez de dar resposta, preferi ser eu a fazer uma última pergunta.

— Posso fazer-te uma pergunta?

— Claro que sim! — disse ele. — Eu prometo responder.

Foi então que eu enchi de coragem e disse:

— Tu agora estás apaixonado pela Patrícia. Há de haver um dia em que tu vais casar. Se não for com ela, será com outra. E depois de casar, com certeza terás filhos, irás construir uma família e… será que mesmo assim tu irás ter espaço para mim na tua vida?

— O que é que achas?

Não! Não me respondas com uma pergunta, por favor!

— Se eu me casar, tu vais com certeza ser o padrinho — disse ele. — Se eu tiver filhos, tu irás ser o tio e mais, irás ser o padrinho deles e de uma coisa eu sei. Tu sempre serás da minha família.

E uma lágrima caiu do meu olho. E para provar que aquele não era um momento de tristeza, de imediato, ele com a sua mão, limpa o meu rosto e contagiando-me com o seu enorme sorriso, acrescenta ainda:

— Eu amo-te! Nunca duvides disso. É um amor diferente, mas é amor…

E essa foi sem dúvida a resposta perfeita. A melhor de todas elas. A resposta que encheu o meu coração de vida. A resposta que fez com que eu conseguisse respirar novamente. Sim! Eu sou gay e apaixonei-me pelo meu melhor amigo mas, quem é que nunca se apaixonou pelo seu melhor amigo? O importante agora, é saber viver com isso. É seguir em frente e sim, estou confiante de que tudo vai correr bem. Sim! É a resposta à minha pergunta…

11
Nov16

Eu Sou Gay | Episódio 3 | Como contar?

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Como é que eu lhes vou contar? Já há tanto tempo que ando com essa questão na minha cabeça, mas não há forma de eu conseguir uma resposta para ela. Todos os dias quando acordo, depois de uma noite muito mal dormida em que tentei sempre arranjar uma solução para o meu problema, eu digo a mim mesmo: de hoje não passa! Hoje vou contar-lhes. Hoje vou deixar a mentira de lado e vou passar a dizer só a verdade. Mas depois as horas passam e quando dou por mim já é novamente noite e eu não cheguei a contar. Não sei como contar. Não sei como começar a conversa, não sei que palavras irei dizer e principalmente, não sei como é que eles irão reagir. E acho que é esse o meu maior problema. Acho que só ainda não lhes contei tudo, porque tenho muito medo da reação deles. Sei que estamos em pleno século XXI mas infelizmente ainda se ouvem histórias de pais que expulsam os filhos de casa, apenas porque os filhos quiseram deixar a mentira de lado. E eu também quero deixar a mentira de lado. Quero finalmente deixar para trás a pesada mascara que carrego todos os dias e ser finalmente eu, mas… Como é que eu lhes vou contar? Como é que eles vão reagir? Será que se eu contar, eu continuarei a ser o mesmo filho de sempre? Continuarei a ser o mesmo irmão de sempre? Meu Deus! Tenho tantas questões, tantas dúvidas na minha cabeça, tantos medos, tantos segredos que, não sei o que fazer.

Hoje tenho 17 anos. Ou melhor! Acho que posso já dizer que sou um jovem adulto, pois daqui a três dias vou já fazer 18 anos. Já vivi algum tempo e muito desse tempo eu vivi com essas minhas dúvidas na minha cabeça. Acho que sem exagero, a primeira vez que eu percebi que era diferente, eu tinha apenas cinco anos. Meu Deus! Era tão novo e já naquela altura eu sabia. Estava confuso, pensei que seria apenas uma fase, mas não! Confuso eu continuo e as incertezas também permanecem. Mas de uma coisa eu já tenho a certeza, aquilo pelo qual eu estou a passar não é uma fase. Não é tipo aqueles tempos em que eu era doido pelos desenhos animados Pokemon e hoje eu já nem os suporto. Eu sei o que sou e não há forma de alterar isso. Sei que sou diferente. Sou igual a tantos outros mas quando eu contar, serei diferente aos olhos dos meus pais, do meu irmão e eu tenho medo. Muito medo!

Há uns dias atrás eu estive mesmo para contar. Respirei fundo várias vezes e tentei de alguma forma ganhar coragem para lhes dizer. Era noite e estávamos os quatro sentados à mesa a jantar. Naquela noite, a minha mãe tinha feito um prato que tanto eu como o meu irmão adorávamos: hambúrguer com batatas fritas e um ovo estralado. E ao contrário do meu irmão que comia e lambuzava-se todo, eu não conseguia comer. Podia até dizer que tinha fome, que estava de estômago vazio, mas eu não conseguia. Na verdade, sentia-me era cheio. Cheio de medo! E eu batalhei muito para que em vez de cheio de medo, eu sentisse-me era cheio de coragem, mas a coisa estava difícil.

Eles falavam entre si mas eu nem conseguia prestar atenção ao que diziam. Estava tão distraído nos meus pensamentos que foi difícil acordar para a vida e perceber que em dado momento, a minha mãe falava diretamente para mim. Questionava-me se eu estava bem. Tive vontade de dizer-lhe que não, não estava nada bem, mas nada disse. E ela insistiu. Perguntou várias vezes se eu estava bem e eu mais uma vez tive que lhe mentir. Disse que sim. Que estava tudo bem, mas ela não ficou convencida. Naquele momento, já todos estavam de olhos postos em mim e o meu irmão André, brincalhão como sempre, começou logo a dizer que eu andava na lua. Na lua eu não estava, mas podia estar perto disso, pois apesar de estar tão próximo da minha família, eu não tinha prestado atenção a nada do que eles tinham andado a dizer durante o jantar.

O meu irmão abusado, ao ver que eu não comia, começou logo a roubar-me as batatas do prato, mas a minha mãe tratou logo de lhe dar uma reprimida. Mas não adiantou de nada, pois ao ver que eu não reagi à atitude do meu irmão, o André voltou a meter o seu garfo no meu prato para levar mais umas quantas batatas. A minha mãe achou estranho a minha falta de atitude e sem demoras, levou a sua mão à minha cabeça para ver se eu tinha febre e mais uma vez questionou se eu estava bem. Eu tentei, juro que tentei abrir a boca para lhes contar, mas como é que eu havia de dizer?! Não sei! Naquele momento senti que podia até engolir um dicionário inteiro, que continuava na mesma sem ter palavras para lhes falar. Limitei-me apenas a dizer mais uma vez que estava tudo bem. Mas não estava! Por dentro eu sentia-me péssimo por continuar com aquela mentira.

Sem coragem para os enfrentar, naquela noite pedi ao meu pai para me ausentar da mesa mais cedo. O meu pai era uma pessoa rígida no que diz respeito à hora do jantar. Como durante o dia estavamos sempre cada um para o seu lado, devido aos vários afazeres que cada um tinha, ao jantar ele fazia sempre questão de estarmos todos sentados à mesa, de televisão desligada, telemóveis afastados e usufruirmos ao máximo da refeição em família. Aquele era o momento para estarmos todos juntos e para contarmos as novidades. E havia sempre algo novo para contar. Quem vê de longe a minha família, pode até achar que aqueles nossos jantares eram super aborrecidos, pois tínhamos que estar ali cerca de uma hora, sem nenhum contacto do exterior, mas não! Aqueles até eram momentos divertidos. Momentos em que os meus pais contavam histórias do trabalho, ou comentávamos uma noticia interessante que tínhamos ouvido durante o dia, em que o meu irmão André contava as coisas novas que tinha aprendido no curso de Design e eu… Bem! Eu na verdade não partilhava muita coisa com eles. Por norma falava sempre muito pouco mas divertia-me com tudo aquilo que eles contavam. Aquele era o melhor momento de família que nós tínhamos durante todo o dia. E os meus pais adoravam preservar esses momentos ao máximo, pois eles já sabiam que mais cedo ou mais tarde eles iam terminar. O meu irmão, agora que tinha arranjado uma namorada, mais cedo ou mais tarde iria era querer passar o tempo com ela e eu… Eu não fazia a mínima ideia de como iria ser o meu futuro a partir do momento em que eu lhes contasse a verdade. E talvez essa era também uma das principais razões pelo qual eu ainda não tinha contado nada. Tinha receio de perder esses momentos em família. Momentos em que o meu pai obrigava-nos a ficar sentados à mesa até ao final do jantar. Mas naquela noite, quando lhe pedi licença para levantar, quando todos ainda tinham o prato quase todo cheio, o meu pai olhou para mim e até deu permissão para eu me levantar. A minha mãe contestou. Disse que eu devia comer, que não podia dormir de barriga vazia, mas o meu pai continuou na sua. Deu-me autorização para sair da mesa e eu, aproveitando a boa vontade do meu pai, perguntei logo se podia ir à casa da Diana. A minha mãe voltou a contestar. Disse que era tarde, era hora do jantar e não era hora de ir bater à porta dos vizinhos, mas eu insisti. Disse-lhes que tinha que ir entregar um livro que ela estava a precisar e sem que eu estivesse à espera, o meu pai deu-me também autorização para ir até à casa dela. Naquele momento senti que algo estranho se passava com o meu pai. Sem saber porque ele estava a abdicar do seu momento precioso em família, para deixar-me eu ir ter com a minha melhor amiga. Mas nem quis pensar muito nesse assunto. O meu principal objetivo naquele momento era afastar-me. Afastar-me antes que eles conseguissem ler escrito na minha testa, aquilo que eu tanto queria contar-lhes, mas não tinha coragem.

Ao contrário da minha família que não prescindia dos jantares todos juntos, a família da Diana comportava-se de maneira diferente. Ela era filha de pais separados e enquanto a mãe jantava sozinha na cozinha a ver televisão, ela e o irmão jantavam cada um nos seus quartos. E sempre que ela era convidada a ir jantar na minha casa, achava tudo muito estranho, pois não estava habituada a sentar-se na mesa para jantar. Mas no que toca à Diana, tudo era estranho. Eu e ela já nos conhecíamos há muito tempo. Desde o tempo em que os seus pais se separaram e a mãe dela alugou uma casa no meu prédio, mesmo por cima da minha casa. Na altura tínhamos ambos 8 anos e de imediato ficamos amigos. E apesar de sermos muito diferentes um do outro, eu e ela conseguimos preservar uma amizade de longa data. Somos os melhores amigos, mas… ela é estranha! Ela é mesmo estranha! Não tem nada haver comigo e por isso, muitas sãos as pessoas que acham estranho a nossa amizade. Enquanto que eu sou o todo certinho, o todo bem comportado, o ingénuo, o inocente, a Diana é talvez a personificação do Diabo. Desde muito cedo que veste-se só de preto, usa maquilhagem escura, fuma e não é só uns simples cigarros, já teve vários namorados e virgem é coisa que ela não é. Ou seja, ela é completamente o inverso de mim. Mas talvez por isso é que sempre nos demos tão bem. Eu sei dos seus segredos e ela sabe dos meus. Ou melhor! Há certos segredos que ela não sabe. Há certas coisas que nem para ela eu tenho coragem de contar. Curiosamente são as mesmas coisas que eu não consigo contar aos meus pais. E porquê? Nem eu sei porquê! Simplesmente não consigo! E o curioso nisso tudo, é que há uns tempos atrás ela contou-me que chegou a ter um caso com uma rapariga lá da escola. E a coisa só não foi mesmo para a frente porque ela percebeu que gostava mesmo muito de rapazes. Mas segundo ela, nunca chegou a arrepender-se dessa experiência lésbica. Eu confesso que fiquei pasmado quando ela me contou essa história. Confesso também que naquele momento eu quis contar-lhe a minha verdade, mas eu sou fraco. Eu não tenho a força que ela tem.

Naquela noite, o jantar dela eram bolachas. Lembro-me que durante o dia ela tinha passado a tarde toda a olhar-se ao espelho e a dizer que estava gorda, mas agora, como jantar, andava a devorar um pacote inteiro de bolachas recheadas com chocolate. Estava deitada na sua cama, a ouvir uma daquelas músicas de havy metal que ela tanto adorava e eu detestava e trocava algumas mensagens pela whatsapp com um novo rapaz que ela tinha conhecido. Chegou a mostrar-me algumas fotos do rapaz e perguntou-me qual era a minha opinião em relação a ele mas eu, deitado ao seu lado na cama, optei por não transmitir nenhuma opinião. Eu estava ali ao lado dela, mas ao mesmo tempo estava tão distante com os meus pensamentos, com as minhas questões que confesso, naquele momento só me apetecia desaparecer do mapa.

Enquanto trocava mensagens, ela, ao sentir-me tão sossegado ao seu lado, perguntou-me se eu estava bem. Eu lhe disse que sim mas ela sem demoras e desviando um pouco o olhar do seu telemóvel para olhar para mim, apenas disse: «Tu dizes sempre que estás bem!» E manteve o seu olhar em mim. Fiquei com a sensação de que ela queria que eu dissesse algo depois daquela sua afirmação, mas eu nada disse. Depois o seu telemóvel deu sinal de uma nova mensagem e ela em vez de ir a correr ver o que a sua nova conquista tinha escrito, permaneceu sossegada a olhar para mim. E isso incomodou-me! Ela tinha a mania de olhar fixamente para mim e tentar perceber o que se passava comigo. Havia quem dissesse que ela era bruxa, pois muitas vezes ela acertava naquilo que a gente pensava. E de forma a não correr esse risco, de ela descobrir o meu segredo através dos meus olhos, eu desviei o meu olhar, agarrei no seu telemóvel e eu próprio li-lhe a mensagem nova que ela tinha acabado de receber. Uma mensagem em que o rapaz dizia que não via a hora de estar com ela. De beijar aqueles seus lábios, tocar-lhe na pele e quando eu ia para ler o resto da mensagem, ela tira-me o telemóvel da mão e mais uma vez pergunta-me: «Tu estás bem?!»

Acreditem! Quando ela me perguntou pela segunda vez se eu estava bem, eu estive mesmo para contar-lhe tudo. Naquele momento senti o meu coração encher-se de coragem e estava para contar. Tudo aquilo que há muito lhe quis contar, mas que nunca tinha tido coragem. Disse cá para mim: «Eu vou contar e seja o que Deus quiser». Mas quando estava para abrir a boca, eis que o impensável aconteceu. Com apenas umas boxers coladas ao seu corpo, o Tiago, irmão dela, entra pelo quarto à procura do seu carregador de telemóvel. Com aquela entrada abrupta, a Diana começou logo a discutir com ele por ele ter entrado sem pedir licença. Mas o Tiago discutiu também. Gritou com ela e pediu-lhe para nunca mais usar o seu carregador. Por breves instantes, os dois fizeram aquilo que melhor sabiam fazer: discutir. Apesar de irmãos, apesar de serem gémeos, os dois tinham um ódio comum entre eles. Eram super diferentes um do outro e nunca estavam de acordo com nada. Todos os dias eram discussões naquela casa e eu já nem me dava ao trabalho de perceber o porquê das discussões. E naquele momento, eu não quis saber da discussão para nada. Só tive olhos para o Tiago. Sim! Todas as minhas atenções concentraram-se naquele belo jovem que estava ali, perante os meus olhos apenas de boxers. Engoli várias vezes em seco e senti uns pingos de suor a escorrerem pela minha testa, pois aquela imagem era maravilhosa. E eu fiz questão de não piscar os olhos em nenhum momento, pois eu tinha que contemplar toda aquela beleza que estava diante dos meus olhos. Uns olhos que já o tinham visto várias vezes sem t-shirt mas nunca assim, com uns boxers apertado às suas pernas e onde dava para uma pessoa imaginar tudo e mais alguma coisa.

Quando acordei daquele transe inusitado e maravilhoso, já a Diana tinha atirado à cara do Tiago o carregador do telemóvel e empurrado ele porta fora batendo logo de seguida bem forte com a porta. Ainda chegou a soltar algumas asneiras e depois, quando olhou para mim, recuperou a sua calma. Desligou o seu telemóvel que não parava de dar sinal de nova mensagem, deligou a música irritante e sentou-se ao meu lado dizendo:

— Porque não tentas?

Confuso eu não percebi o que ela quis dizer com o ‘tentar’. Cheguei até a questionar-lhe o que ela queria dizer com aquilo, mas de imediato ela continuou a falar e a se explicar.

 — Sim! Porque não tentas? Tu sabes que eu e o Tiago a gente não se fala muito, mas eu tenho quase a certeza absoluta que ele é gay.

Ao ouvir essa sua afirmação eu fiquei pasmado a olhar para ela. Nem queria acreditar no que ela estava a dizer. No que ela estava a insinuar, mas ela continuou.

— Ou melhor! Talvez ele seja mais é Bi mas isso não interessa. Tenho quase a certeza que ele também gosta de homens. Por isso deixa-te de tretas e tenta. Vai falar com ele…

«Falar-lhe o quê»? Tentei eu dizer-lhe, mas depois do que tinha acabado de ouvir, eu não consegui dizer-lhe nada. Estava chocado com o modo como ela estava a ter aquela conversa comigo. Estava envergonhado! Estava com vontade de fugir dali a correr para não ter que ouvir mais nada. E de facto foi isso mesmo que tentei fazer. Para fugir à verdade, eu tentei levantar-me da cama e fugir dali mas ela não deixou. Agarrou-se ao meu braço com força e disse-me:

— Eu sei que a gente nunca falou sobre esse assunto. Mas talvez esteja na hora de falares, não é verdade Artur?

E eu continuei sem saber o que dizer. Por momentos ainda tentei fazer força para fugir dos seus braços, mas em tudo, ela era sempre mais forte do que eu. Obrigou-me a estar ali sentado e colocando-se de joelhos à minha frente continuou a falar.

— Sei também que estás apaixonado pelo Tiago e que sofres por isso. E é por isso que eu te estou a dizer. Vai tentar. Vai falar com ele. Talvez serás surpreendido com a atitude dele.

— Eu não sei do que estás a falar. — disse eu finalmente, já com os olhos em lágrimas.

— Vamos parar de fingir de uma vez por todas ok? — continuou ela. — Eu sei! Já há muito tempo que eu sei. Só estava à espera que tu falasses primeiro, mas como já vi que não tens tido coragem eu… Desculpa estar a meter-me nesse teu assunto pessoal, mas eu não aguento mais ver-te assim. Eu sinto que estás a morrer por dentro por causa desse teu segredo, mas isso não tem que ser um segredo penoso. Entendes?!

Naquele momento, tudo o que era lágrimas que eu evitava chorar à frente dela e dos meus pais, escorreram todas pelos meus olhos. Formou-se um rio de lágrimas e a vontade que tive foi de abraçar-lhe. De agradecer-lhe por ter tirado um peso enorme de cima das minhas costas. Mas eu não fui capaz de dar-lhe o abraço. Nem sequer fui capaz de abrir a boca para dizer seja lá o que fosse. A vergonha era tanta, por pela primeira vez estar ali sem a mascara que eu carregava todos os dias, que por momentos senti que estava completamente despido. O meu corpo nu estava ali à mostra, assim como também estava as minhas fraquezas, os meus defeitos, os meus medos, as minhas verdades, tudo estava ali exposto. E por muito que eu sentisse que ela me aceitava e sempre me aceitou da forma como eu era, eu naquele momento não conseguia estar ali ao seu lado. Sem que ela estivesse à espera, levantei-me e saí do seu quarto às pressas. Só queria sair daquela casa e esconder-me bem longe, mas enquanto percorria o corredor da casa dela que dava acesso à porta de saída, cruzei-me com o Tiago e fui mesmo contra ele. Contra aquele seu corpo delicado e despido. Ele nada disse. Depois do encontrão apenas ficou a olhar para mim e eu para ele. Também não tive coragem de dizer-lhe nada e antes que a Diana me alcançasse, eu desviei-me dele e fui-me embora. Saí da casa onde estava a única pessoa que realmente me conhecia de verdade.

Até aquele dia, eu sempre questionei a mim mesmo como é que havia de contar. Mas pelos vistos não foi preciso contar nada. A minha verdade estava estampada no meu rosto e a Diana, ela conseguiu ver isso. E os meus pais?! Será que eles também já viram? Será que eles também já sabem? Será que já toda a gente sabe que eu sou gay? Não sei! O que sei é que ainda não tenho coragem para enfrentá-los com essa verdade. Ainda não!

04
Nov16

Eu Sou Gay | Episódio 2 | As perguntas de um filho...

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Um pai nunca está preparado para as perguntas inusitadas de um filho. Principalmente se esse filho tiver apenas 5 anos, for super inocente e curiosidade ser coisa que não lhes falta. Nessas idades, eles querem saber de tudo e perguntam tudo sem a mínima vergonha. Eu, há uns dias atrás fui mesmo surpreendido por uma dessas questões. Sem que eu estivesse à espera, o menino que já se julga crescido, perguntou-me algo e eu… bem, eu inicialmente fiquei sem saber o que dizer, o que responder, apenas tive que respirar fundo e tentar arranjar uma solução para lhe dar resposta que ele queria, precisava ouvir. Mas começando do inicio.

Há uns dias atrás, num domingo passado, depois de termos passado a tarde com família e amigos cá em casa, a noite surgiu e logo chegou a hora de colocar o menino Artur para dormir. Por ele, ele bem que ficaria mais umas horas acordado, pois energia era coisa que não lhe faltava. Tinha passado a tarde toda a brincar com os tios, com os primos, a correr de um lado para o outro, a saltar, mas nem por isso ele demonstrava querer dormir. Mas já era tarde e mesmo ele não querendo ir deitar-se, naquela noite, coube a mim a tarefa de o ir deitar, pois a sua mãe tinha que adiantar algumas coisas para o dia seguinte. De forma a ver se o sono surgia e ele finalmente adormece-se, contei-lhe uma história, a mesma que ele já estava farto de ouvir, mas que nem por isso se cansava. Ouvia a história como se estivesse a ouvi-la todos os dias pela primeira vez. E no final da história, ajeitei os seus lençóis, acomodei-o junto com o seu peluche favorito e dei-lhe um beijinho de boa noite. E foi aí, quando estava prestes a levantar-me, é que ele sem que eu estivesse à espera, perguntou:

— Papa! O que é ser gay?

‘Gay?!’ pensei eu. Onde será que ele ouviu essa palavra, para agora estar a perguntar-me o que era? Será que tinha sido através da televisão? Não! Ele só via desenhos animados. Só se agora, os desenhos animados de hoje em dia, já falavam da palavra ‘gay’, como se estivessem a ensinar-lhes a escreverem a palavra, como acontecia em alguns desenhos animados em que ensinavam os miúdos a escrever, a ler e a contar. Será? Não! Achei estranho aquela pergunta àquela hora e antes de dedicar-me a arranjar uma maneira de o responder, quis primeiro matar a minha curiosidade.

— Mas aonde é que tu ouviste essa palavra?

E de forma tímida e a encolher-se por completo, dando logo a entender que ele tinha feito alguma coisa de errado, o pequeno Artur lá falou.

— Foi esta tarde. Eu estava a brincar com o Pedrito e sem querer ouvi essa palavra.

Percebi de imediato que ele não queria contar de forma clara, onde tinha escutado a palavra. Queria apenas obter uma resposta da minha parte, mas eu não desisti. Tendo aquele comportamento de quem tinha acabado de cometer um erro, só faltou o Artur se esconder de baixo dos lençóis, mas com o meu olhar inquisidor, ele lá desabafou tudo cá para fora.

— Eu sei que é feio escutar à porta — disse ele com medo de ser castigado por isso — mas quando estava a brincar às escondidas com o Pedrito, eu quis esconder-me no quarto da mama e do papa. Mas quando lá cheguei, assim que estava para entrar, a mama e o tio Henrique estavam lá dentro a falar e…

— E?! — disse eu à espera que ele finalmente contasse onde tinha escutado a palavra ‘gay’.

— Foi o tio Henrique. — disse ele. — Ele estava a chorar. Não sei porquê. Disse à mama que era gay e depois os dois se abraçaram. A mama disse-lhe que não havia nenhum problema nisso, mas eu não percebi nada. O que é que é isso de ser gay?

E com essa sua pergunta eu fiquei de braços cruzados sem saber o que fazer. A pergunta por si só já era estranha, mas o que me deixou surpreso naquele momento, foi saber que o meu cunhado, que não passava também de uma criança de 15 anos, era gay. Será que o Artur tinha escutado corretamente? Não que houvesse nenhum problema em ser gay, mas nunca tinha olhado para o meu cunhado dessa forma. Eu para falar a verdade não tenho lá grande contacto com o Henrique. Dou-me mais com os outros dois irmãos da minha mulher. São da minha idade, ou até mais velhos e por isso, acabo sempre por ter mais assunto com eles do que com o irmão mais novo da Sofia. Ele tem apenas uma diferença de 10 anos de idade com o Artur e os dois sim, dão-se super bem. É notário para todos, que o Henrique é o tio preferido do Artur, pois é esse que o leva a passear, o leva ao cinema, faz-lhe todas as vontades e mais algumas, mas… ser gay?! Isso é uma novidade! Nunca tinha dado conta se bem que… Agora que o meu filho falava sobre isso, já tinha realmente dado conta de que nunca o tinha visto com uma rapariga. Eu na idade dele já tinha tido algumas namoradas. Sim! Na idade dele eu até já tinha perdido a virgindade, mas ele… Bem! Eu não tinha nada haver com isso mas a verdade, é que eu via ele mais acompanhado pelo seu amigo Beto, do que com miúdas. Será que esse Beto era o seu…

— Pai! — disse o meu filho interrompendo os meus pensamentos. —  Não vai responder à minha pergunta.

— Vou filho! Vou…

Mas como dizer a um menino de cinco anos o que é ser ‘gay’? Não estava preparado para ter essa conversa agora com ele mas de forma alguma iria conseguir fugir. Assim que a sua curiosidade estava no seu mais alto nível, não havia forma de dar a volta. Para aquela noite terminar descansada, alguém tinha mesmo que matar essa sua curiosidade. Eu só não sabia era se era a pessoa certa para isso. Mas lá tentei.

— Tens a certeza que foi mesmo isso que ouviste?

— Sim! O tio Henrique chorava e disse a mama: “Eu sou gay”!

— Gay! Pois bem! — tentei eu começar por explicar. — Às vezes, ao contrário da mama e do papa, que um dia se conheceram, apaixonaram-se e casaram, às vezes há assim meninos como eu e tu, que em vez de gostarem de meninas como a mama, gostam é de meninos, entendes?

Por momentos ficou-se tudo em silêncio e eu já estava super preocupado por achar que estava a baralhar a cabeça do meu filho, com esse assunto muito delicado. Ele lá ficou com um ar muito pensativo e de imediato, percebi que estaria para vir por aí, mais uma das suas questões. E não estava errado em relação a isso.

— Mas eu gosto do Pedrito. — disse o Artur confuso — Ele é menino como nós. Isso quer dizer que eu também sou gay?

— Não! — disse eu com mais medo ainda de o estar a baralhar. — Tu gostas do Pedrito como teu amigo, ele é teu primo, verdade? Da mesma forma que eu gosto dos teus tios, mas nem por isso somos gays. O que eu estou a querer dizer é…

Meu Deus! Como é que eu iria desembrulhar essa questão?  Como é que eu iria explicar as coisas de forma a ele compreender e não colocar questões atrás de questões. Mas depois de respirar fundo, lá voltei a ganhar força para lhe falar.

— Lembras-te de no outro dia, teres-me dito que gostas da Maria lá da tua sala?

— Não pai! — disse ele de imediato. — Já não é a Maria. Eu gosto é da Mafalda ela é mais bonita…

Mafalda?! Pensei eu! Mas quem é essa Mafalda? Tinha quase a certeza absoluta que há uns dias atrás ele estava era apaixonado pela Maria. Acho que ele ainda não me tinha falado dessa Mafalda mas… não interessa! Seja Maria ou Mafalda, a explicação ia dar ao mesmo.

— Tudo bem! — disse eu. — Tu gostas da Mafalda, não é?!

Ele acenou afirmativamente com a cabeça.

— Estás apaixonado por ela, não é?

E mais uma vez ele respondeu apenas com o acenar da cabeça.

— Pois bem! Às vezes, há meninos que em vez de se apaixonarem por meninas, assim como tu gostas da Mafalda, por achares ela bonita, há meninos que gostam é de outros meninos. Se apaixonam por outros meninos, entendes?!

— Ahhh! — disse ele apenas com uma grande exclamação. Depois pensativo ficou a olhar para o infinito. Via-se mesmo que estava a tentar colocar as suas ideias em ordem na sua cabecinha. E quando tudo já estava organizado, não hesitou em voltar a questionar. — Gostam, gostam, assim como a mama gosta do papa?

— Sim! — disse eu.

— E andam de mãos dadas?

— Sim!

— E dão beijinhos?

E afirmativamente, abanei a cabeça.

— Na boca? Como a mama e o papa dão? — disse ele um pouco surpreso.

E sem conseguir responder por palavras, abanei uma vez mais a cabeça afirmativamente. E quando eu pensava que ele estava cada vez mais confuso, ele saiu-me com essa.

— Isso então quer dizer que o Beto, é o namorado do tio Henrique.

— Ah! O Beto! — disse eu surpreso com a afirmação. — Porque é que dizes isso? Já viste alguma coisa entre eles os dois?

— Nunca os vi aos beijos, nem de mãos dadas mas… — disse ele, tentando ter todo o cuidado com as palavras. — Eles estão sempre juntos, não é verdade? Eu no outro dia até perguntei ao Beto se ele era o namorado do tio, mas ele apenas riu-se e disse que eles eram apenas grandes amigos mas… não sei não.

— Mas tu já tinhas reparado nisso? — perguntei eu ainda surpreso, por descobrir que o Artur, apesar de ser apenas um menino, já tinha descoberto mais coisas do que eu.

— Sim! — disse de imediato. —  Eu acho que eles os dois se gostam. Assim como a mama e o papa.

— Pois! Deve ser.

E quando eu achava que o assunto já estava arrumado por ali, eis que o Artur volta a fazer aquele olhar de quem ainda está confuso, de quem ainda precisa ser esclarecido de algumas coisas e claro, pressenti logo que viria aí mais algumas questões. E não é que veio mesmo.

— Não percebo! — disse ele. — Ser gay é quando um menino, gosta de maneira especial um outro menino, certo?

— Sim! E quem diz menino, pode também dizer menina. Pois há meninas que em vez de gostarem de meninos, gostam de meninas. — disse eu e de imediato arrependi-me de ter dito aquela afirmação. Será que com aquilo, ele iria ficar ainda ais confuso? Mas não! O que estava a intriga-lo naquele momento era outra coisa.

— Ok mas… — continuou ele — Porque é que ele quando contou isso à mãe, ele estava a chorar? Parecia que tinha cometido um erro, que estava a fazer algo de errado. Parecia estar com medo e… É errado ser gay pai?

— Não! — disse eu de imediato, mas ele não parou de questionar.

— É errado um menino gostar de um menino de uma forma especial?

— Claro que não mas… — disse eu mas por momentos fiz uma pausa. Naquela noite já tinha passado uma etapa. Já tinha matado a sua primeira curiosidade ao explicar-lhe o que era ser gay mas agora, estava perante outra etapa. Talvez uma etapa ainda mais complicada. Pois como é que eu iria explicar-lhe que não, não havia nenhum erro em ser-se gay mas que sim, as lágrimas do seu tio devessem talvez ao medo. Ao grande medo de ser rejeitado, pela irmã, pela família, ser rejeitado pelo sobrinho que ele tanto amava. Como explicar a uma criança de cinco anos, que sem grande dificuldade percebeu que havia ali algo especial entre o tio e o amigo Beto, que infelizmente ainda existe no mundo, pessoas que olham para os gays como criminosos, como doentes, como uma aberração da natureza? Como?

Ao perceber que algo estava errado, Artur não iria desistir em obter uma resposta da minha parte. Para ele já não havia importância saber o que queria dizer o que era gay. O importante era mesmo saber o porquê das lágrimas. Saber o porque do seu tio ter dito aquilo, de uma forma como se estivesse a sofrer por isso. E eu lá tentei explicar-lhe da melhor forma possível, sem gerar mais confusões e sem qualquer tipo de rodeio.

— Eu não sei porque é que o teu tio chorava. Apenas desconfio. Desconfio porque há muita gente que ainda vê a homossexualidade como… E antes que perguntes o que é ser homossexual, digo-te já que essa é talvez a palavra correta para se referir a um gay, a um homem que ama um homem. E na visão de muita gente, o correto é o homem amar a mulher. Por isso, muitas vezes o homossexual é incompreendido. Não é aceite na sociedade. Há pessoas que maltratam, pessoas que ofendem os homossexuais com palavras que jamais deverás aprender, ouviste Artur? Há pessoas com umas mentalidades ainda muito pequenas, que fazem com que essas pessoas não vejam, que qualquer forma de amar é válida. Entendes?

Ele continuou a olhar para mim mas nada disse. Senti, no entanto, que por momentos, havia ali uma certa tristeza no seu olhar e antes que ele imaginasse um cenário muito feio para o seu tio Henrique, eu tratei logo de fazer com que ele visse um cenário bonito, e cheio de alegria.

— Talvez quando o teu tio falou com a tua mãe, ele tivesse com medo de ser rejeitado. Por isso chorava. Tinha medo de não ser aceite por ela. Medo que a sua família o virasse às costas, mas não! Eu te assegure que isso nunca vai acontecer. Para nós. Para ti, o tio Henrique será sempre a mesma pessoa. Não interessa de quem ele gosta. Ele tem todo o direito em ser feliz à sua maneira. E quanto a nós, nós só temos a obrigação de fazer com que as outras pessoas vejam o mesmo que nós. Que ele é uma pessoa, linda, maravilhosa, que simplesmente gosta…

— De outra pessoa! — disse uma voz atrás de nós.

E ao ver a sua mãe, encostada à beira da porta, o Artur lança-lhe um daqueles sorrisos que enche de alegria uma casa inteira. Eu olho para trás e lá vejo ela, a Sofia linda como sempre, mas com algumas lágrimas nos olhos, que rapidamente tratou de as limpar. Depois a sorrir para os homens da sua vida, aproximou-se de nós. Sentou-se ao meu lado, beijou-me nos lábios e de seguida, deu um beijo na testa de Artur.

— Está na hora do menino dormir, não está? — disse ela.

— Sim! — disse ele abraçando-se ao seu boneco. Mas antes de fechar os olhos, ele não hesitou em dizer mais algumas palavrinhas. — Mãe?! Se possível, depois diz ao tio Henrique que não importa que ele seja gay. Ele será sempre o meu melhor tio, o meu melhor amigo e eu vou sempre gostar dele.

— E ele de ti! — disse ela com um grande sorriso nos lábios, nos olhos, apesar de esses ainda estarem cheios de água.

E naquele momento eu fiquei ali a pensar. Há quanto tempo é que ela estava ali junto à porta a escutar a nossa conversa. Será que estava ali desde o inicio e em nenhum momento tentou ajudar-me nas questões complicadas do nosso filho? De qualquer forma não interessa. Sem entrar em grandes detalhes, naquela noite acho que tinha conseguido matar a curiosidade do meu filho. Tinha superado a prova e tinha dito apenas aquilo que eu realmente achava. Na minha casa, o tio Henrique iria ser sempre recebido da mesma forma, de braços abertos, na companhia do Beto ou de qualquer outro namorado que viesse a ter ao longo da sua vida.

Já de olhos fechadinhos e pronto para dormir e dar como terminado aquele longo domingo, eu e a Sofia levantamo-nos da cama e dirigimo-nos para a porta. Fechamos a luz e antes de sairmos, sem que eu estivesse à espera, ela beijou-me e disse:

— Amo-te!

E assim, desta forma linda, a noite de perguntas inusitadas chegou ao fim.

 

>>> E o próximo encontro do “EU SOU GAY” fica já agendado para o dia 11 de Novembro. Entretanto, relembro que também tu podes participar neste projeto. Se gostas de escrever e gostavas que aqui fosse publicado uma história real ou ficção, da tua autoria, só tens mesmo é que escrever a história e envia-la para o endereço de email: blogeusougay@gmail.com. O único critério para que a história seja aqui publicada, é em dado momento da tua história, alguém (personagem ou narrador), diga as palavras mágicas EU-SOU-GAY. Fico à espera das tuas histórias… <<<

03
Nov16

Eu Sou Gay | +Informações

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No passado dia 28 de Outubro, começou aqui no MORE, uma nova série que eu espero que seja muito bem recebida por todos aqueles que me seguem aqui no blog. O projeto EU SOU GAY, surgiu de uma ideia, onde em cada história diferente que eu escrevesse, haveria sempre algo em comum entre essas histórias. O comum, nessa série de histórias que serão publicadas em todas as sextas, é o facto de ao longo da história, um dos personagens, por variadíssimas razões, sair do armário. Essa personagem irá apresentar ao mundo o seu verdadeiro ‘eu’ e por isso, sem receios irá mesmo dizer EU-SOU-GAY. Apesar de inicialmente, este projeto contar com histórias de pura ficção, a verdade é que espero contar ainda histórias reais, do verdadeiro coming out. Por isso, se és também uma pessoa que adora escrever e gostavas de partilhar a tua história comigo e com todos os que seguem o blog, és então convidado a escrever o teu texto e a enviar para o email que foi criado de propósito para essa ocasião, o blogeusougay@gmail.com. Se aceitares esse meu desafio, existe apenas uma única regra para que o teu texto seja depois publicado nessa série de histórias. No decorrer do texto, as palavras EU-SOU-GAY têm (obrigatoriamente) que aparecer. És capaz de participar? Então eu fico à espera.

 

Entretanto, para além do MORE, foi criado ainda um blog exclusivo para este projeto. É o blog EU SOU GAY que podes encontra-lo em eusougay.blogs.sapo.pt. Nesse novo blog, todos os episódios da série serão publicados e quem seguir este novo blog, terá o privilégio de ser um dos primeiros a ler os episódios, pois aí, cada episódio será publicado uma hora antes de serem publicados no MORE. Ou seja, não custa nada seguir também esse meu novo blog, pois lá, eu prometo ainda apresentar alguns conteúdos extras.

 

Amanha, dia 4 de Novembro, será então apresentado o Episódio número 2. No entanto, se ainda não tiveste a oportunidade de ler o primeiro episódio intitulado “Uma Mãe Sabe”, então do que estão à espera? Passem já por aqui e comecem já a ler…

28
Out16

Eu Sou Gay | Episódio 1 | Uma mãe sabe...

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Tem 1 mensagem nova:

«Mãe?! Eu preciso muito falar consigo. Tenho uma coisa para lhe contar que já devia ter contado há muito tempo, mas... Se puder, vem ter comigo no mesmo sítio onde passeávamos todos os domingos à tarde. Eu vou estar lá, sentado no mesmo banco de sempre à sua espera...»

 

E mais não disse. Mas aquilo que disse foi o suficiente para que eu ficasse preocupada. O meu primeiro impulso foi ligar para ele. Falar com ele, ouvir a sua voz, tentar perceber o que se passava e saber se ele estava bem, mas ele não atendeu. Pior! A chamada foi logo encaminhada para o voice mail. Mas eu não desisti. Insisti na chamada mas mais uma vez foi parar ao voice mail. Naquele momento eu senti. Algo se passava e enquanto eu não soubesse o que era, eu não ia ficar descansada.

Quando recebi a sua mensagem, já passavam das 13 horas. Devido ao imenso trabalho que tinha naquele dia, optei por não ir almoçar. Comi ali mesmo, na minha secretária, em frente ao computador, uma sandes que tinha pedido a uma colega para me trazer do bar. O fim de semana estava à porta e eu queria adiantar o máximo de trabalho possível, para ir de fim de semana mais descansada mas... quando ouvi aquela sua mensagem, parei por completo. Não tive mais cabeça para pensar em números. Larguei tudo e na impossibilidade de conseguir falar com o meu filho, liguei para a minha nora. Talvez os dois estivessem juntos. Talvez ela me atendesse o telemóvel e me explicasse o que se estava a passar mas não. Tal como o meu filho, ela não me atendeu. No caso dela, chamou, chamou mas nada. E com essa ausência de resposta mais aflita eu fiquei. Mãe é assim mesmo! Mãe sente, mãe sabe, mãe conhece os seus filhos melhor do que ninguém e eu tinha a certeza absoluta que algo tinha acontecido.

Larguei a sandes, desliguei o meu computador, peguei nas minhas coisas e parti. Ainda cheguei a cruzar-me com a minha colega, a tal a quem eu tinha dito que não ia almoçar e que na sua pausa tinha-me comprado uma sandes. Achou estranho eu estar agora a sair às pressas e como eu tinha realmente muita pressa em saber do meu filho, só tive tempo de dizer-lhe que tinha que sair urgentemente mas que voltava. E nem dei tempo para que ela fizesse qualquer pergunta. Saí a correr. Saí com um único destino na minha cabeça: a praia.

Quando o João era novo, ele não me largava nem por um segundo. Queria estar sempre agarrado às saias da mãe. O pai irritava-se com isso mas... eu gostava. O Ricardo, o meu filho mais velho, já não queria saber da mãe para nada. Já tinha os seus amigos, gostava de sair e já não tinha tempo para estar com essa mãe galinha. O João era diferente. Sempre foi diferente. Mesmo depois de adulto ele gostava de estar comigo. Gostava da minha companhia. Visitava-me com alguma regularidade mas já há muito tempo que não passeávamos pela praia. A praia que tinha tanto significado para mim. A praia, onde o mar engolia as minhas lágrimas sempre que eu e o João passávamos os domingos a passear à beira mar. Eu sempre tinha ficado com a sensação de que o João nunca tinha percebido que eu o levava à praia, apenas para eu conseguir resolver os meus problemas. Para estar com ele e pensar na vida. Para estar com ele e sentir-me feliz e voltar para casa com essa mesma felicidade. Mas depois de ouvir a sua mensagem eu cheguei à conclusão que afinal estava enganada. Estava tão enganada que agora, até ele recorria à praia para conseguir resolver os seus problemas. Naquele momento ele estava a fazer exatamente o que eu fazia em tempo e sim! Eu sentia que algo o atormentava. Eu sentia que havia algo de errado. Sentia que o mar, agora não só havia engolido as minhas lágrimas como também engolia o meu filho até ao fundo do oceano. Não o deixando respirar, viver... Uma mãe sabe! Uma mãe sempre sabe! As vezes pode fingir-se de cega, mesmo tendo os olhos bem abertos mas... sempre sabe!

Naquele dia chovia imenso. Tinha estado a manhã toda a chover e felizmente eu tinha levado o meu guarda-chuva comigo. Por momentos ainda pensei apanhar o autocarro, para depois apanhar o comboio e ir até à praia do Estoril mas isso iria demorar imenso tempo. E se havia coisa que eu queria, era chegar o quanto antes bem perto do meu filho para poder abraça-lo e saber o que se passava. Por isso, não hesitei em apanhar o primeiro táxi que me apareceu a frente. Sabia que a conta ia ser alta mas eu não queria pensar nisso agora. Havia coisas mais importantes para pensar. E durante toda a viagem de Lisboa até ao Estoril, eu fiquei com o coração apertado. Insisti uma vez mais em tentar ligar-lhe mas nada. A Tânia, a minha nora, também não atendia o telefone e toda essa ausência de reposta fazia com que muitos filmes se passassem pela minha cabeça mas... tentei respirar fundo e quando o motorista disse que já tínhamos chegado, fiquei um pouco mais aliviada. Pelo menos sabia, tinha a certeza absoluta que estava bem mais próxima do João.

Como seria de esperar, a praia estava deserta. Quem é que num dia chuvoso como àquele iria querer dar um passeio pela praia? Não! Minto! A praia não estava deserta. Ali estava nada mais nada menos do que uma das pessoas mais importantes da minha vida. E por isso, de guarda-chuva aberto e lutando contra o vento e a chuva, corri em direção ao banco onde parávamos sempre para lanchar quando ele era pequeno e acompanhava-me pelo passeio à praia. Era o local favorito dele. Era o local onde ele sabia que teria sempre direito a um gelado, ou um bolo e depois, com a sua cabeça encostada ao meu ombro, víamos o mar, víamos o céu, o horizonte até ao pôr do sol e sim! Ali estava o João. No mesmo banco de sempre ali estava ele.

«Meu Deus!» Foi essa a primeira reação que eu tive quando o vi ali sentado. Numa profunda solidão, sem casaco, ao frio, à chuva e olhar para o infinito. Se até aquele momento o meu coração já estava apertado, depois de o ver assim, tão sozinho e desamparado, o meu coração ficou ainda pior. Senti um tormento tão grande dentro de mim. Uma necessidade tão forte de o colher nos meus braços e protege-lo de tudo e todos que... fiquei na verdade sem saber o que fazer. Aproximei-me junto a ele, com o meu guarda-chuva protegi-o da chuva e desenrolei o meu cachecol do pescoço, para proteger o corpo do meu filho que apesar de molhado, frio que nem uma estátua, estava completamente imóvel. Não tremia e não teve nenhuma reação com a minha chegada. Simplesmente continuou a olhar o horizonte.

— João?! O que é que se passa João? — perguntei eu aflita — Onde é que está o teu casaco? O que é que fazes aqui?

Naquele momento saiu da minha boca tantas questões, mas ele não me respondeu a nenhuma delas. Manteve-se na sua e esse seu comportamento deixou-me ainda mais preocupada.

— Fala comigo. — pedi eu — diz-me o que se passa? Aconteceu alguma coisa com a Tânia?

— Eu estou cansado! — disse ele em voz baixa. E falou tão baixo que eu praticamente nem ouvi o que ele disse mas não faltou oportunidade de o ouvir melhor, pois logo de seguida ele repetiu: — Eu estou cansado! Eu estou cansado!

— Sim! Eu imagino! — disse eu. — Anda. Vamos para casa, mudar essa roupa molhada antes que fiques doente.

— Eu já estou doente! — disse ele, continuando sempre na mesma posição. — Pelo menos é o que o pai acha. Ele disse isso na minha cara.

— Hã?! O que é que o imbecil do teu pai disse?

E depois das palavras saírem-me da boca, senti-me mal uma vez mais, por estar a ofender o pai dos meus filhos. Aquele homem podia ser o meu ex-marido, era realmente um imbecil mas não deixava de ser o pai dos meus filhos.

— Desculpa! — disse eu acariciando o rosto do meu filho — Eu não queria ofender o teu pai mas... Eu não estou a perceber. Tu estiveste com o teu pai hoje?

Ele não respondeu. Manteve-se na sua e naquele momento vi que do seu rosto não só escorriam as gostas da chuva, como também escorriam as lágrimas. Ele chorava e ao vê-lo assim, percebi que tinha acontecido algo entre ele e o seu pai. E muita coisa começou a fazer sentido na minha cabeça. Quando estava no trabalho, a tentar pôr tudo em dia, antes mesmo de receber a mensagem do João, o seu pai tinha tentado ligar-me várias vezes. Como já há muito não falávamos e para falar a verdade, nem tínhamos mesmo nada para falar, eu ignorei todas as suas chamadas, mas agora estava a começar a perceber tudo. O João tinha-se encontrado com o seu pai esta manha. Só podia ser isso. E mais uma vez eles tinham-se zangado. Eles davam-se bem mas volta e meia os dois discutiam. Mas depois a coisa passava e no dia seguinte eles voltavam a falar. Ou pelo menos sempre tinha sido assim. Mas desta vez havia algo de diferente nessa discussão entre eles os dois. E o facto de estarmos na praia, naquele banco, indicava que essa discussão tinha sido bem mais séria.

— Eu estou cansado! – voltou ele a repetir. — Cansado de estar sempre a mentir. Cansado de todos os dias ter que...

Por momento ele parou de falar. Respirou fundo e pela primeira vez olhou para mim.

— Vocês não sabem. Vocês não veem. Mas todos os dias, a todas as horas eu tenho que carregar comigo uma pesada mascara, apenas para parecer aquilo que eu não sou. E eu estou cansado de carregar essa mascara.

Eu quis dizer alguma coisa mas não consegui. Queria de alguma forma consola-lo, mas algo impedia que o fizesse e sem receios ele continuou a falar.

— Um dia. Há uns anos atrás. Sentado aqui nesse mesmo banco a mãe disse-me uma coisa. Seja lá o que tu faças da tua vida, faz sempre tudo em busca da...

— Felicidade! – conclui eu a frase. Uma frase que sim, eu lembrava-me perfeitamente do dia em que tinha dito isso a ele. Foi num dia de verão. Um belo dia em que eu e ele tínhamos passado a tarde toda juntos. Primeiro tinha almoçado com os meus dois filhos mas depois, o Ricardo optou por sair com os amigos e eu e o João fomos mais uma vez até à praia. Lembro-me de ainda o ter perguntado se ele queria ir a algum outro lado, ao cinema por exemplo mas não. Ele fazia questão de passear pela praia. Mal ele sabia que eu já não precisava da praia para tomar uma decisão. Mas acabei por fazer-lhe a vontade. Naquela altura o João já estava com 15 anos mas passeou comigo, da mesma forma que o fazia quando tinha apenas seis anos. Depois de andarmos do Estoril a Cascais e de Cascais a Estoril, sentamo-nos no mesmo banco de sempre. Ele teve direito a dois gelados, pois eu não estava com vontade de comer e ele acabou por devorar o seu e o meu. Depois, quando terminou os gelados, da mesma forma que fazia quando era criança, encostou a sua cabeça ao meu ombro para ver o maravilhoso por do sol e foi aí que eu disse: — João?! Seja lá o que tu faças da tua vida, faz sempre tudo em busca da tua felicidade.

Ele olhou para mim, como se não percebe muito bem o que eu queria dizer com aquilo mas eu lá acabei por esclarece-lo melhor, dizendo:

— Eu vou separar-me do teu pai.

E sem demoras ele abraçou-me. E eu senti-me bem. Senti-me feliz. Senti-me finalmente viva mas o João chorou. Não sei se de tristeza ou de alegria mas chorou. E a verdade é que foi a primeira vez que o vi ali a chorar. Na mesma praia onde tantas vezes eu chorei e pedi forças ao mar para conseguir encontrar uma solução.  Na praia onde eu consegui encontrar um caminho para a minha felicidade. Na mesma praia onde agora ele...

Ele chorava! O meu filho, já adulto chorava e não! Naquele momento, depois de ele fazer-me relembrar um belo momento da minha vida, eu não consegui ficar feliz. Senti o meu coração morrer pois já sabia o que vinha a seguir.

— O que é que tu queres dizer com isso? — perguntei eu já sabendo qual seria a resposta. Ele, por momentos manteve o seu olhar, olhos nos olhos comigo mas logo depois voltou a olhar o horizonte e disse:

— Eu não estou feliz!

E custou-me tanto ouvir isso. Tudo o que uma mãe sempre quer é que os seus filhos sejam felizes. Nenhuma mãe quer ver o seu filho sofrer e saber que o João não era feliz, magoava-me imenso. Fazia-me sentir culpada por ele não ter conseguido alcançar a felicidade que todos buscam. Eu pensei que ele fosse feliz.

— Eu pensei que... — disse eu — estava tudo bem entre ti e a Tânia. Ela está grávida. Vocês vão ser pais e eu sei que tu sempre quiseste ser pai.

— Mas eu não estou feliz! — interrompeu ele — A mãe sabe que eu não casei com a Tânia por amor. Nós sempre fomos apenas amigos. Grandes amigos! Cada um de nós tínhamos os seus segredos e foi precisamente esses segredos que nos juntou.

— Eu não estou a perceber! — disse eu e mais uma vez ele voltou a olhar para mim.

— Hoje o pai apanhou-me.

— Apanhou-te? — disse eu surpresa com a sua afirmação.

— Na mentira! — disse ele de imediato. — Hoje o pai descobriu o meu segredo. Eu estava no café a tomar o pequeno almoço e eu nem me apercebi que ele também ali estava. Quando dei conta já foi tarde. Já ele havia partido para cima de mim todo raivoso. Só não chegou a agredir-me fisicamente porque o Afonso meteu-se à frente. Mas insultou-me. Ofendeu-me. Disse que eu estava doente. Disse que preferia que eu morresse.

— Chega! — disse eu, não querendo saber mais nada do que aquele imbecil tinha dito ao meu filho.

— A mãe também acha que eu sou doente? — perguntou ele com muito receio de ouvir a minha resposta.

Claro que não! Mas não foi isso que me ocorreu dizer naquele momento. Simplesmente perguntei-lhe:

— Quem é o Afonso?

E a sua resposta surpreendeu-me.

— É a felicidade. — disse ele.

E por breves momentos ninguém disse mais nada. Ele olhou para mim. Eu olhei para ele e eu nem queria acreditar no que se estava agora a passar. Queria dizer-lhe algo. Queria abraça-lo mas não tive coragem. Fiquei agora eu sem reação. Desviei o meu olhar e desta vez fui eu que olhei o horizonte, mas senti que os seus olhos ainda olhavam para mim. Ainda esperavam uma palavra da minha parte. Mas não tive coragem. Tantas vezes me preparei para aquele momento e agora... Agora simplesmente não sabia como reagir. O João tem hoje 35 anos e talvez sem exagerar, desde os seus cinco anos que eu ando a preparar-me para ter essa conversa com ele mas agora... Era difícil! Nenhuma mãe quer que o seu filho sofra e às vezes, ver que os seus filhos deixem finalmente cair a mascara pesada, faz com que uma mãe se sinta impotente. Uma mãe quer proteger sempre o seu filho mas isso às vezes é difícil. É difícil lutar contra o Mundo. Por isso não! Eu não estava preparada para aquele momento. Não estava!

Mas o momento certo era agora e vejam só como é a vida. Passado um tempo a chuva se foi e por entre as nuvens começou a aparecer o sol e mais. Começou a aparecer o maravilhoso arco-íris e foi nesse instante que ele disse:

— Eu sou gay! Sempre fui. Vocês nunca quiseram ver. Nunca quiseram saber mas eu sou gay.

Engoli em seco e mantive-me no silêncio. Mas ele continuou a falar.

— Talvez a mãe tenha a mesma opinião que o pai. Que me ache doente mas eu mesmo assim vou seguir o seu conselho. Vou em busca da minha felicidade.

Naquele momento percebi que tinha educado muito bem o meu filho. Fechei finalmente o guarda-chuva, coloquei-o de lado e olhei para o meu filho que continuava com os olhos em lágrimas. E depois sorri. Sorri para ele porque sabia que era de um sorriso que ele agora estava a precisar. E no meio de tanta dor, de tanto sofrimento, o meu coração voltou a sorrir quando vi que o João me retribuiu com um dos seus sorrisos lindos. Aí eu não resisti. Abracei-o com força e disse:

— Eu amo-te! Seja de que maneira for, eu sempre vou-te amar, ouviste?!

Ele a chorar acenou com a cabeça e eu, com todas as minhas forças continuei a abraça-lo enquanto dizia.

— A mim não me importa onde vais buscar essa tua felicidade. A única coisa que eu quero é que não deixes de continuar a correr atrás dela. É só isso! Tudo o resto não importa.

E será que tudo o resto importa mesmo?

Uma mãe sabe! Uma mãe sempre sabe! Ok?! A felicidade pode não estar ao lado de uma Tânia. Se calhar, pode mesmo é estar ao lado de um Afonso, não interessa! Uma mãe sabe. Sabe que para continuar a viver, o seu filho precisa ser feliz e de uma coisa eu sei, eu irei estar sempre ao lado do meu filho a ajuda-lo a ser feliz e ele sabe! O importante é que ele sabe...

 

>>> O próximo episódio vem já no dia 4 de Novembro <<<

24
Out16

Excerto do primeiro episódio de "EU SOU GAY" (estreia dia 28)

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Tem 1 mensagem nova:

«Mãe?! Eu preciso muito falar consigo. Tenho uma coisa para lhe contar que já devia ter contado há muito tempo, mas... Se puder, vem ter comigo no mesmo sítio onde passeávamos todos os domingos à tarde. Eu vou estar lá, sentado no mesmo banco de sempre à sua espera...»

 

E mais não disse. Mas aquilo que disse foi o suficiente para que eu ficasse preocupada. O meu primeiro impulso foi ligar para ele. Falar com ele, ouvir a sua voz, tentar perceber o que se passava e saber se ele estava bem, mas ele não atendeu. Pior! A chamada foi logo encaminhada para o voice mail. Mas eu não desisti. Insisti na chamada mas mais uma vez foi parar ao voice mail. Naquele momento eu senti. Algo se passava e enquanto eu não soubesse o que era, eu não ia ficar descansada.

Quando recebi a sua mensagem, já passavam das 13 horas. Devido ao imenso trabalho que tinha naquele dia, optei por não ir almoçar. Comi ali mesmo, na minha secretária, em frente ao computador, uma sandes que tinha pedido a uma colega para me trazer do bar. O fim de semana estava à porta e eu queria adiantar o máximo de trabalho possível, para ir de fim de semana mais descansada mas... quando ouvi aquela sua mensagem, parei por completo. Não tive mais cabeça para pensar em números. Larguei tudo e na impossibilidade de conseguir falar com o meu filho, liguei para a minha nora. Talvez os dois estivessem juntos. Talvez ela me atendesse o telemóvel e me explicasse o que se estava a passar mas não. Tal como o meu filho, ela não me atendeu. No caso dela, chamou, chamou mas nada. E com essa ausência de resposta mais aflita eu fiquei. Mãe é assim mesmo! Mãe sente, mãe sabe, mãe conhece os seus filhos melhor do que ninguém e eu tinha a certeza absoluta que algo tinha acontecido.

 

Atenção caros amigos, para seguirem a história completa, fiquem atentos à estreia do “EU SOU GAY”, que irá acontecer já nesta sexta-feira…

21
Out16

A partir do dia 28 de Outubro "EU SOU GAY"

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Por aqui eu já vos falei do projeto “EU SOU GAY” e hoje, está na hora de anunciar a data de estreia desta nova secção do MORE. E caso ainda não tenhas ouvido falar do “EU SOU GAY”, eu explico que projeto é esse.

 

Caso ainda não saibam, eu adoro escrever. Todos os dias surgem ideias novas na minha cabeça e sempre que possível, sento-me em frente ao computador, para registar essa ideia numa página do Word. Uma dessas ideias foi precisamente este novo projeto. Um dia pensei: «Porque não criar um conjunto de histórias, onde por variadíssimas razões diferentes, um dos personagens da história a determinado momento vai dizer “eu sou gay”?» A partir dessa ideia, muitas histórias podem ser criadas e muitas delas já estão criadas e em breve serão aqui publicadas. Ou seja. Todas as semanas, eu comprometo-me a publicar um novo episódio desse projeto. Episódio esse que pode tratar-se de uma história de ficção, uma história real, ou até mesmo, uma história da autoria de quem me segue por aqui. Sim! Porque a piada deste projeto, é fazer com que ele também seja feito por vocês. Se gostam de escrever e gostariam de colaborar com o “EU SOU GAY”, só têm que escrever uma história (real ou de ficção), onde a única condição para que a história depois seja publicada no MORE, é que, em determinado momento da história, um dos personagens terá que dizer as três palavrinhas mágicas: EU-SOU-GAY. E para enviarem a história, podem fazê-lo através do email blogeusougay@gmail.com.

 

Eu vou ficar à espera das vossas colaborações, mas até lá, apontem já a data de estreia deste meu novo projeto. É já no próximo dia 28 de Outubro (sexta-feira), que será aqui apresentado o primeiro episódio desta série de muitas histórias que prometo lançar por aqui. No entanto, nesta segunda-feira, dia 24, eu irei apresentar um pequeno excerto do primeiro episódio. Por isso fiquem atentos e não percam nada do que vem por aí…

14
Out16

"EU SOU GAY" | +Informações sobre o projeto...

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EU SOU GAY! E é assim, com esta revelação que começa este novo projeto e é também assim que ele irá continuar. E este novo projeto aqui do MORE será nada mais nada menos, do que uma série de histórias (reais ou ficção), onde apesar de todas elas serem diferentes, haverá sempre algo em comum entre elas. No desenrolar da história, um dos personagens irá sair do armário. Irá encher-se de coragem e assumir o seu verdadeiro 'eu' aos seus pais, aos irmãos, amigos, filhos, ou até para si mesmo. E com algumas dessas histórias vais com certeza sentir um turbilhão de sentimentos que poderão ir do riso ao choro e claro, irás ainda conseguir identificar-te com elas.

 

Sem receios, sem quaisquer tipos de medos este projeto não vai contar nada em segredo. Aqui, em alto e em bom som, as revelações irão ser ditas e as reações a elas poderão ser muitas. Estás preparado para ouvir (ler) essas revelações? Então toma nota! Brevemente será aqui lançada a primeira de muitas histórias. E se não queres perder nenhuma dessas histórias, nenhuma dessas revelações impressionantes, regressa a este blog sempre que possível, pois em breve eu irei partilhar com todos vocês, mais detalhes em relação ao “EU SOU GAY”.

 

E claro, nunca será demais relembrar que todos os vossos comentários serão sempre bem vindos e se quiserem partilhar as vossas histórias comigo estejam à vontade. Para colaborarem com este projeto do MORE e fazerem dele também o vosso projeto, só têm mesmo que enviar as vossas histórias (reais ou ficção) para o endereço de email que foi criado propositadamente para esta situação (blogeusougay@gmail.com). A única condição que existe para que depois a tua história seja publicada neste blog, é que no decorrer da tua história, as palavras 'eu sou gay' têm que surgir no vosso texto.

 

Eu vou ficar à espera das vossas revelações.

07
Out16

Apresentação do projeto "EU SOU GAY"

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Nos tempos que correm, ninguém é obrigado a ‘sair do armário’. Só sai de lá quem quer! Não existe aquilo do «Ah e tal! Tu és gay, tens que te assumir!» Não! Isso não existe! A pessoa só se assume se assim o quiser. Ninguém é obrigado no seu local de trabalho ou na escola, assumir a sua orientação sexual. Ninguém tem nada a ver com isso! Não interessa se a pessoa gosta de homens, se gosta de mulheres, ou se gosta de homens e mulheres. Isso é um assunto pessoal de cada um de nós e ninguém tem nada que se meter. É assim que eu acho e é assim que eu reajo no meu dia-a-dia.

 

Eu sou um homem homossexual. Para mim, sou uma pessoa assumida e bastante resolvida. Os mais próximos ligados a mim sabem desse facto e os restantes, podem até saber, desconfiar, mas da minha parte, não existe a necessidade de eu assumir perante essas pessoas. No entanto, e contrariando todo esse meu texto inicial, há uns tempos atrás eu resolvi criar um projeto pessoal, chamado “EU SOU GAY”. Era até para fazer desse projeto um blog, onde com alguma frequência, eu iria publicar uma série de histórias reais, ou de ficção, onde o tema principal de cada história, era haver sempre uma personagem, que no desenrolar da história, iria dizer precisamente isso: “Eu sou gay”. Na altura não tive cabeça para lançar o projeto, mas agora, aqui com o blog MORE, resolvi lança-lo e em breve, todos vocês terão conhecimento acerca dele.

 

Fiquem atentos ao MORE, pois brevemente irei partilhar com todos vocês, mais alguns detalhes deste novo projeto…

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