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Num só blog, está tudo aqui! O MORE tem desabafos/opiniões em relação a mim e ao que se passa à minha volta. Tem sugestões de cinema, televisão e não só. E tem mais, muito mais...

25
Nov16

Chegou o fim de semana (mas só para alguns!)

Finalmente chegou ao fim mais uma semana! E isso não quer dizer que vou conseguir aproveitar o fim de semana que esta agora a começar, mas já é sinal de que as minhas folgas estão cada vez mais próximas. Trabalho só mas sábado e domingo e depois, segunda e terça fico em casa. E vou mesmo ficar em casa. Ando muito cansado e preciso parar um pouco.

 

Esta semana tudo foi um pouco complicado. Para além do trabalho, tive tantos outros afazeres que quase nem consegui vir ao blog. Tive que ir ao médico, tive que fazer análises, exames e andei por Lisboa, a circular por algumas escolas, à procura de informações em relação a uns cursos que eu gostaria de frequentar. Neste momento não vou falar sobre este assunto, pois ainda estou muito na dúvida se realmente tenho condições para trabalhar 8h por dia e ainda meter-me numa sala de aulas por 3-4 horas. Quando tomar uma decisão eu aí falarei sobre ela. Para já, queria apenas dizer que eu ainda estou vivo. Sim! Posso não ter passado por aqui com frequência esta semana mas ainda ando por aqui.

 

E já que hoje resolvi aparecer, nada melhor do que desejar-vos a todos um óptimo fim de semana!

25
Nov16

Eu Sou Gay | Episódio 5 | Tenho uma coisa para vós contar

EuSouGay_Episodio005.jpg

 

Tudo começou com um: «Tenho uma coisa para vós contar». E isso deixou-me bastante intrigada. Confesso que fiquei o resto da semana a pensar no que seria e por muito que tentasse não pensar em coisas más, a verdade é que estava muito preocupada. Será que ele iria dizer que estava doente? Que tinha algum problema? Que iria morrer? Meu Deus! Eu sou assim! Dramática por natureza, mas quando alguém começa uma frase a dizer que tem algo para nos contar e depois não conta logo de imediato, eu não tenho como evitar. Na minha cabeça, só consigo pintar maus cenários.

Foi na terça-feira que ele ligou. Já passavam das cinco da tarde e eu tinha levado o meu filho à natação. E enquanto esperava no carro pelo fim das aulas, aproveitei para ler um pouco do livro que andava a tentar ler há semanas. De repente, levando consigo toda a minha concentração, o meu telemóvel começou a tocar. De inicio até pensei em ignorar, pois de há uns dias para cá, a minha cunhada andava constantemente a ligar para meter as fofocas em dia e eu já não tinha mais paciência para isso. Mas quando se é mãe e tem dois filhos, é difícil ignorar o telemóvel. Quanto ao Raul, eu sabia que ele estava bem na natação, mas eu nada sabia em relação ao mais velho, ao Francisco. Sabia apenas que ele estava na escola e com o telemóvel sempre sem parar de tocar, imaginei logo que alguma coisa de ruim tinha acontecido com ele e por isso, larguei o livro, na minha mala procurei o telemóvel, assim que o encontrei reparei que afinal tratava-se do meu pai e sem demoras atendi.

A conversa inicial foi sempre a mesma. Perguntou se eu estava bem, perguntou como é que estavam os seus netos queridos, perguntou sobre o meu marido Afonso, se andava tudo bem no nosso trabalho, enfim, foi a conversa habitual. Mas depois, a conversa começou a ir para um outro caminho. Quando foi a minha vez de perguntar se ele estava bem, ouviu-se do outro lado uns breves e ao mesmo tempo longos segundos de silêncio e foi então que ele disse:

— Eu tenho uma coisa para vós contar. A ti e ao teu irmão.

— Pode falar pai, — disse eu achando o tom da sua voz um pouco estranho.

— Não querida! — disse ele logo de imediato. — Prefiro falar diretamente com vocês os dois. Pode ser?

— Claro pai! Eu estou só à espera do fim das aulas do Raul e depois passo por aí com o Zé.

— Não! — disse ele. — Não tem que ser hoje. Eu aliás já liguei para o José e já combinei com ele um almoço no domingo cá em casa, para estarmos todos juntos. O que dizes?

— Por mim tudo bem! Eu no domingo passo por aí com os miúdos para estarmos todos juntos.

— Eu preferia que viesses só tu! — insistiu ele, deixando-me já muito preocupada. — É que eu tenho uma coisa para vós contar e preferia que para já, estivesses só tu e o teu irmão. Pode ser?

— Sim pai! Claro, mas… Está tudo bem?

— Está querida! É só uma coisa que eu preciso contar, mas não te preocupes, está tudo bem.

— De certeza? — insisti eu na pergunta e mais uma vez, do outro lado ouviu-se um breve e longo segundo de silêncio. Já sabia que depois desse silêncio, ele ia voltar a dizer que sim, que estava tudo bem, mas lá bem no fundo, eu já sabia que não. Algo não estava bem com o meu pai e ele não tinha agora coragem de me dizer ao telefone. Mas depois desse silêncio, ele lá acabou por dizer o seguinte:

— Posso então contar com vocês para o almoço no domingo?

— Sim pai! Nós lá estaremos.

— Então até domingo! — disse ele despedindo-se de mim com um beijinho e antes que eu questionasse seja lá o que fosse, ele de imediato desligou a chamada. Nesse mesmo instante, o Raul na companhia da sua colega Maria entram dentro do carro, mas eu estava tão distraída por causa daquela chamada que quase nem me apercebi disso.

Os dois miúdos sentaram-se da parte de trás do carro, colocaram os cintos de segurança e quando se aperceberam que eu não ligava o carro para irmos embora, o Raul, colocando a sua mão sobre o meu ombro, desperta-me do meu breve transe e só então é que me lembro que tinha combinado com a mãe da Maria, levar-lhe a casa. Cumprimento os dois, mas como eu andava com uma pulga atrás da orelha, não ia conseguir levá-los a casa, sem antes tentar perceber o que é que se estava a passar com o meu pai. Por isso, sem demoras, liguei para o meu irmão Zé. O estúpido lá acabou por dizer que já sabia esse almoço de domingo desde o dia de ontem e nem sequer tinha-se dado ao trabalho para me falar dele. Perguntei-lhe se ele não achava estranho o pai fazer-nos esse convite, dizendo que tenho algo para nos contar. Algo que pelos vistos era importante, pois queria estar só na presença dos filhos. O Zé claro, como já era habitual, começou a gozar comigo. A dizer que eu já estava a ficar preocupada e a criar filmes á toa, pois com certeza, o que ele haveria de contar, não seria nada de banal. Aproveitou ainda para dizer que já que iriamos estar os três juntos nesse domingo, ele iria aproveitar a ocasião para também nos contar algo. De forma a que eu não ficasse ainda mais preocupada, ele achou por bem salientar que o que tinha para contar era uma novidade boa, uma surpresa que todos iriamos gostar, mas não sei, algo estranho se passava e eu não descansava enquanto não soubesse o quê. Insisti com o Zé, pois eu sabia que o meu pai tinha por hábito confidenciar mais com ele e por isso, tinha quase a certeza que o Zé já sabia qual era o assunto que o pai queria nos falar, mas nada, o Zé ou não sabia mesmo, ou então estava a fingir muito bem. E naquele momento, só não insisti ainda mais com ele, pois no banco de traz, tanto a Maria como o Raul já se queixavam que estavam cansados e com fome. Isso fez com que eu desse a chamada como terminada e lá segui viagem.

Aos domingos à tarde, era frequente eu passar sempre na casa do meu pai. Às vezes, se não era para o almoço, era para o lanche. Fazia questão que os meus filhos mantivessem sempre contacto com o avô que eles tanto adoravam. Com o avô que os levava a passear, ao cinema, ao futebol e que os dava tudo e mais alguma coisa sem pestanejar. Desde que os meus filhos nasceram, praticamente sempre que estava com o meu pai, as crianças também estavam juntas e agora, depois de receber esse estranho convite. Um convite direcionado apenas a mim e ao meu irmão, para ir almoçar a casa dele, isso era sinal de que algo estava errado. Algo não estava bem. E durante o resto da semana, eu não consegui descansar enquanto não descobrisse o que era. Perguntei ao meu marido, perguntei aos meus filhos se o avô lhes tinha dito alguma coisa, mas nada. Eles não sabiam rigorosamente nada. Ou se calhar até sabiam, mas não queriam contar, pois na relação de avô e netos, sabia que muitas vezes havia ali segredos que eu desconhecia. O meu marido tentou acalmar-me, dizendo que com certeza não seria nada de especial, mas isso não me convencia. Eu sabia que há umas semanas atrás o meu pai tinha feito alguns exames, tinha feito algumas visitas ao médico e por muito que eu lhe questionasse sobre esses exames, ele sempre dizia que eram exames de rotina e que graças a Deus estava tudo bem com a sua saúde. Será que ele me andava a mentir em relação a isso? Será que ele tinha alguma doença grave e não tinha coragem de nos contar?

Depois desse convite, não houve um único dia até ao domingo, em que eu não tivesse ligado para o meu pai. Houve dias até em que eu liguei para ele duas vezes só para saber se ele realmente estava bem. Para tentar puxar cá para fora o que ele tinha para nos contar, mas não havia como ganhar nessa batalha. Ele não contava rigorosamente nada. Não adiantava nada. Apenas pedia para eu parar de fazer filmes, pois o que ele tinha para contar não era nada de grave, mas isso não me descansava. E depois havia o Zé. Também o Zé tinha algo para nos contar e tinha escolhido esse mesmo dia para contar-nos uma novidade. Mas quanto a ele eu nem estava preocupada. Já estava mais do que cansada das suas novidades. Tinha a certeza absoluta de que a sua novidade estava relacionada com mais uma das suas ideias absurdas para abrir um negócio. Negócio esse que iria depois ser financiado pelo meu pai, pois ele tudo fazia pelo seu filho querido e claro, negócio esse que passado uns meses iria ao fracasso como já muitas vezes tinha acontecido. Por isso, já nem valia a pena preocupar-me com o que quer que fosse que ele tivesse para contar. O importante era o que o meu pai tinha para contar e por causa disso, andei a semana toda em pulgas, de tão aflita que estava.

O domingo lá chegou. Um domingo lindo, que apesar de estarmos em pleno Outono, era um domingo de calor. Um domingo onde o sol brilhava, mas que dentro de mim, uma nuvem bem negra pairava sobre mim, prestes a rebentar depois de ouvir o que o pai tinha para contar. Apesar de termos combinado, que às 13 horas estaríamos os dois em casa do meu pai, eu, numa última tentativa de saber do Zé o que o pai tinha para contar, combinei com o meu irmão encontrarmo-nos no café da esquina, próximo à casa do meu pai. E ao meio dia em ponto, lá estávamos os dois. Pedimos um café e como o tempo convidada a isso, fomo-nos sentar na esplanada. Ali, praticamente implorei para que ele me contasse o que sabia acerca do que o pai tinha para contar, mas ele já cansado desse assunto, num tom agressivo acabou por dizer:

— Para com isso Adelaide! Que stress! Porque é que tens que achar sempre que é uma coisa má o que o pai tem para contar?

— Sei lá! — disse eu tentando arranjar uma desculpa para toda aquela a minha preocupação. — Ele já não é um homem novo. Fez 60 anos há uns dias atrás e…

— E ele é um homem super saudável! — continuou o meu irmão. — Às vezes até acho que ele é bem mais saudável do que eu, bem mais jovem…

— Isso pode ser tudo aparências. — disse eu. — Eu sei que ele andou a fazer uns exames médicos sabias? Por acaso ele alguma vez falou-te do resultado desses exames?

— Não! Não falou! Talvez porque não houvesse nada para contar.

— E se ele tiver um cancro da próstata? — disse eu de rompante, deixando o meu irmão incrédulo a olhar para mim.

— Tu só podes estar doida! — disse ele claramente chateado. — O que é que te levou a pensar uma coisa dessas?

— Sei lá! Ele já está na idade…

— Na idade de quê? — interrompeu-me ele. — Às vezes tenho a sensação de que tu queres ver o pai morto o quanto antes.

— Não sejas parvo José António! — disse eu revoltada com a sua afirmação e quase partindo a chávena de café, quando de imediato largo-a contra o pires. Nada partiu-se, mas o café acabou por transbordar pela mesa. Ao aperceber-se de toda a minha aflição, com o seu olhar eu sei que de imediato ele me pediu desculpas e depois, já mais calma e tentando limpar a mesa com guardanapos, acabo por dizer: — Eu só estou preocupada é isso. Vais-me dizer que não tens reparado o pai estranho nesses últimos dias.

— Não sei! Eu para falar a verdade não tenho visto o pai esses últimos dias, mas… Já paraste para pensar que talvez não há razões para preocupações. Se calhar ele vai apenas dizer que… sei lá! Talvez vai dizer que vai finalmente de férias. Lembras-te de ele ter dito no seu aniversário de que gostava de fazer uma viagem pela Europa?

— Sim! — disse eu tentando-me lembrar do dia em que ele partilhou connosco esse seu desejo.

— Pois então! Se calhar deve ser isso! Se calhar vai perder o medo de andar de avião e viajar por aí.

— Sim mas… — disse eu já com outras preocupações na cabeça. — Se for isso, não deve ser muito bom ele viajar sozinho…

— Caramba Adelaide! — disse ele interrompendo-me. — Até se for isso tu já estás novamente preocupada. Que mal tem se ele quiser andar por aí a conhecer o mundo? Que mania que tu tens de ficar preocupada com tudo. É incrível como tu és igualzinha à mãe, que ficava noites e noites sem dormir por causa das preocupações.

— Preocupações essas que tu não paravas de as dar.

— Ah sim! — disse ele. — Vais-me querer dizer que tu também não estavas sempre a dar-lhe preocupações. Galdéria como tu eras…

— Estúpido! — disse eu, dando-lhe uma palmada bem forte no seu braço. Ele por breves segundos queixou-se da dor, mas depois, olhou para mim, com aquele olhar que eu já conhecia tão bem. Um olhar que dizia para eu acalmar o meu coração, pois tudo estava bem. Sem conseguir hesitar e já bem mais calma, ri-me para ele e ele riu-se também. De forma mais descontraída, continuamos a conversa a rir, a brincar e a tentar adivinhar coisas absurdas que o pai teria para nos contar.

O tempo foi passando e quando de repente o telemóvel do Zé deu sinal de mensagem, apercebi-me então que já estava quase na hora de irmos para casa do pai. O Zé, ao pegar no telemóvel e ao ler uma mensagem, riu-se para si mesmo e depois de responder à mensagem, volta a colocar o telemóvel no bolso e olhando para mim, diz o seguinte:

— E diz-me lá maninha. Também andaste aí super preocupada e sem dormir por causa do que eu tenho para contar?

— Eu quero lá saber do que tens para contar! — disse eu levantando-me da cadeira e indo em direção ao balcão de atendimento, deixando-o sozinho na esplanada.

Enquanto esperava pelo funcionário para fazer o pagamento, olhei para trás e vi o meu irmão, já de pé, a fumar um cigarro e à espera de mim. Naquele momento senti-me mal. Mal por lhe ter virado às costas. Por lhe ter dado a entender de que eu jamais me iria preocupar com o que ele tinha ou não para contar. E a verdade é que sim, eu também em relação a ele estava preocupada. Não de forma tão exagerada como estava com aquilo que o pai tinha para contar, mas estava. Não sabia explicar porquê, mas durante aquele tempinho em que tínhamos estado juntos, tinha reparado que o Zé estava diferente. Havia algo nele de diferente. Só não sabia o quê, mas daqui a pouco já saberia. Faltava pouco para ouvir da boca dele o que tinha para contar e para saber também da boca do meu pai, o que de tão importante ele tinha para nós contar aos dois.

Há hora marcada, estávamos já em casa do meu pai e assim que entrei porta adentro, passou uma avalanche de memórias boas na minha cabeça que me fez ficar emocionada. Aliás, muito antes de entrar em casa, eu já sentia aquele cheirinho agradável que eu tinha a certeza que vinha da nossa cozinha. Um cheirinho bom de Carne de Porco à Alentejana que me fazia muito lembrar da minha querida mãezinha. Quando entrei em casa e senti aquele cheiro, por momentos até achei que a minha mãe ainda estava na cozinha a preparar-nos os nossos pratos favoritos, mas não, o cozinheiro de serviço tinha sido mesmo o meu pai. Ele, que enquanto a minha mãe era viva não sabia nem fazer um ovo estrelado, agora era um verdadeiro Chef de cozinha. Assim que se viu sozinho naquela imensa casa, de forma a conseguir sobreviver, ele não teve outro remédio senão aprender a cozinhar e por isso, um dia, na companhia do Francisco, quando este apenas tinha quatro anos, o meu pai agarrou no livro de receitas da minha mãe e começou a cozinhar. Naquele dia os dois preparar um verdadeiro banquete, com direito a doces e salgados que me fizeram muito lembrar-me da minha mãe. E apesar de ao longo dos tempos o meu pai ter-se aperfeiçoado na cozinha, a verdade é que não havia ninguém que chegasse á altura da minha mãe. E naquele momento, quando entrei em casa do meu pai, na nossa casa, foi como se ela ainda ali estivesse. Como se ela nunca tivesse partido. Pois tanta falta ela fazia. Não só a mim, como também ao meu irmão e claro, sei que o meu pai também sentia muito a sua falta.

E depois de recordar bons momentos, entramos em casa onde fomos de imediato recebidos pelo meu pai, com muitos abraços e beijinhos. Ele ainda estava de avental o que me levou a pensar que ainda estaria atrasado no almoço, mas quando lhe perguntei se precisava de ajuda, ele disse que já estava tudo pronto. Só faltava mesmo colocar a mesa, coisa que de imediato eu me ofereci a fazer, enquanto o preguiçoso do meu irmão, estendeu-se logo no sofá e ligou a televisão para fazer zapping pelos vários canais. Eu ainda o chamei para me ajudar na mesa, mas ele fingiu nem ouvir. Apenas respondeu ao meu pai, quando esse nos perguntou se queríamos tomar algo. Eu preferi não beber nada, mas o Zé lá optou por tomar uma cerveja antes do almoço ser servido.

Na mesa, já estavam três pratos, as talheres, os copos e os guardanapos. Só faltava mesmo dispor os pratos pela mesa e antes de fazer isso, reparei num livro que o meu pai tinha sobre a mesa. Um livro de um escritor americano, que se chamava “Nunca é tarde para o amor”. Fiquei curioso em relação àquele livro que nunca tinha visto cá em casa. Nem sequer tinha sido um de nós a oferecê-lo. Ainda estive para desfolhar algumas páginas, mas quando estava para fazê-lo, o meu pai regressou da cozinha com a cerveja para o meu irmão, e já sem o avental. Deu a cerveja ao Zé e depois, aproximou-se até junto de mim para me ajudar na mesa. Coloquei o seu livro sobre uma estante e sorri para o meu pai, que de imediato retribuiu o sorriso, dizendo:

— Estou muito feliz por ter-vos aos dois aqui comigo.

E eu fiquei feliz por ouvir aquilo. Na verdade, já há muito tempo que não estávamos só os três juntos. A essa hora, se o Raul aqui estivesse, já estaria em cima do avô para lhe contar as novidades e o Francisco, também já iria quer ter toda a atenção do avô para lhe falar do futebol e do Benfica que ambos amavam. E depois, sentados no sofá, o meu marido e o Zé com certeza já estariam a discutir, por razões estúpidas como sempre. Ou seja, com toda a família ali, não estaríamos a ter um momento calmo como o que estávamos a ter. Um momento a três, de pai e filhos.

Assim que a mesa ficou posta, o meu pai foi a cozinha buscar o almoço. Disse que tinha uma surpresa para mim, mas eu já sabia o que era. O cheiro que emanava por toda a sala já denunciava que o meu pai tinha feito aquela Carne de Porco à Alentejana, especialmente para mim, que tanto adorava. O meu irmão, abusado como sempre, mesmo o meu pai ainda não tendo regressado da cozinha, sentou-se à mesa, no mesmo local onde ele sempre se sentava. Em nenhum momento disponibilizou-se a ajudar e quanto a isso, fiz-lhe cara feia quando ele se sentou, mas ele simplesmente ignorou-me. Passado um tempo, o meu pai regressou com uma travessa bem grande com aquela delícia que só pelo cheiro, já dava água na boca. Colocou a travessa no centro da mesa e disse que ia cozinha buscar o resto. Eu mais uma vez ofereci-lhe ajuda, mas o meu pai, independente como sempre, recusou a ajuda, pediu para que eu me sentasse já há mesa, e foi a cozinha buscar o arroz, a salada, a água, o sumo e ainda mais uma garrafa de cerveja para o Zé. Em pouco tempo a mesa estava cheia. Não era propriamente um banquete, mas claramente, era comida a mais para apenas três pessoas.

Com um grande sorriso no rosto, pois aparentava estar feliz com a nossa presença, o meu pai sentou-se à cabeceira da mesa, com os seus filhos, cada um a seu lado. Desejou-nos um bom almoço e deu-nos autorização para começarmo-nos a servir. Eu basicamente ofereci-me de imediato para os servir e enquanto servia o prato do meu pai, o do meu irmão e também o meu, demos inicio aquela habitual conversa de circunstancia. Por mim, aflita como eu ainda estava, preferia que ele fosse direto ao assunto. Que nos esclarecesse logo de uma vez por todas, o grande motivo daquele almoço a três. Mas antes de passarmos ao tema mais delicado, percebi que o meu pai primeiro queria passar algum tempo de qualidade com os filhos. Sem falar em preocupações da vida. Perguntou sobre os netos, como é que eles andavam, se a escola ia bem. Perguntou sobre o Afonso, se o trabalho dele andava a correr bem, se já andava melhor das dores de costa que frequentemente o atormentavam e depois quis saber de mim. Perguntou como é que eu estava, se as coisas na escola e com os alunos andavam a correr bem, enfim, quis saber de tudo. E depois, quando o almoço já se estava a perlongar e tanto eu como o Zé já estávamos a repetir, ele concentrou a sua atenção no meu irmão. Quis saber das novidades que o Zé tinha para contar e foi então, que o meu irmão começou por dizer:

— Eu tenho andado bem pai! Na verdade, tenho andado muito bem. — disse ele com um grande sorriso no rosto. — Eu ainda não vos tinha contado, porque não vós queria criar falsas expectativas mas eu arranjei um trabalho…

E quando ele disse aquilo o silêncio que se seguiu foi total. Tanto eu como o meu pai ficamos surpreendidos a olhar para ele. No meu caso, eu até larguei os talhares no prato e fiquei mesmo incrédula, de boca aberta a olhar para ele. Nem queria acreditar no que ele estava a dizer.

— Na verdade eu já lá estou há dois meses, — continuou ele, deixando-me ainda mais embasbacada com o que dizia. —Só agora vos conto isso porque a coisa está a correr bem. Estou a gostar e acho que é desta, é desta que eu finalmente vou assentar-me.

— Que bom filho! — disse o meu pai claramente feliz. — Fico muito satisfeito por ti.

O meu irmão olhou para mim, na esperança de que eu também lhe dissesse algo, mas o que me saiu da boca foi apenas isso:

— Finalmente! Já não era sem tempo. Afinal de contas, já estás quase com 30.

Ao dizer isso, o meu irmão desviou o olhar, demonstrando não ter ficado nada satisfeito com o meu comentário. O meu pai olhou para mim com um olhar de reprovação e depois, voltando a olhar para o seu filho querido disse:

— O importante é que tu estás bem! E eu sinto isso.

— Sim! Estou bem! Não ganho lá grande coisa, mas já é um começo.

— Claro! — disse o meu pai. — Já fico muito feliz por isso e acho que a ocasião já merece um doce. A não ser que… — disse olhando para mim que ainda dava algumas garfadas na carne de porco — ainda queiras repetir Adelaide?

— Não! Eu já estou bem! — disse eu largando os talheres.

O meu pai levantou-se da mesa, disposto a tirar a mesa e quando me levantei também, para o ajudar, ele fez questão de dizer que não precisava de ajuda. Pediu para que eu ficasse na mesa, a fazer companhia ao Zé, que ele tratava da sobremesa. E foi então o que fiz.

Já sozinhos na sala e achando que devia umas palavras mais calorosas ao meu irmão, olhei para ele e disse:

— Eu também estou muito feliz por ti!

— Obrigado! — disse ele a sorrir para mim.

— Agora percebo o porque de teres dito que tinhas uma boa novidade para contar, uma surpresa.

— Ah não! Mas… — disse ele interrompendo-me. — Na verdade a surpresa não era essa.

— Não?! — disse eu estranhando.

— Eu realmente tenho uma novidade para vos contar.

— Outra?! — disse eu novamente surpresa. — Conta?! Estou ansiosa para saber.

— Não! Espera o pai chegar e eu…

— Vá-la Zé! Conta lá o que tens para dizer. — insisti e por momentos achei que ele não iria falar enquanto o pai não regressasse com a sobremesa, mas depois, com um grande sorriso no rosto, ele começou por falar a boa nova.

— Eu conheci uma pessoa.

— A sério?!

— Sim! E…

Com aquela falta de palavras percebi logo o que se passava. O meu irmão estava apaixonado. Estava com os olhos a brilhar, com as maças do rosto coradas e eu estava feliz por ele. Se havia pessoa que merecia um grande amor, esse alguém era ele. E ele tinha razão quando dizia que tinha uma boa novidade para contar. Aquela era uma novidade e tantas e tenho a certeza que também o pai ia adorar saber. E quando o Zé estava prestes para me contar mais pormenores sobre essa sua relação, o pai entra novamente na sala com uma enorme taça de Pudim de Ovos que coloca mesmo no centro da mesa. Animada, depois de ouvir a novidade da boca do meu irmão, disse logo de imediato.

— Conta-lhe Zé! Conta-lhe as novidades.

— Mais novidades?! — perguntou o meu pai surpreso. — Pensei que já nós tínhas dito tudo.

— Não pai! É melhor sentar-se, pois o Zé tem algo muito importante para lhe contar.

— Calma Adelaide! — disse o meu irmão tentando fugir do assunto enquanto que o meu pai já se sentava, com aquele rosto coberto de curiosidade. — Também não é assim tão importante e para além disso, acho que não é justo. — olhando para o pai. —O pai chamou-nos aqui para nos contar algo, não foi? Pois bem! Vamos deixar o pai primeiro falar e depois eu falo sobre mim, pode ser?

O meu pai acenou afirmativamente com a cabeça e quando percebi que ele ia começar a falar acerca da razão daquele almoço, eu voltei a ficar aflita. Aquela animação causada pelas novidades do Zé, desapareceu por completo e a preocupação estava de volta. Estava preocupada, com medo de ouvir aquilo que não queria e se ao longo da semana eu andava super ansiosa para saber o que tinha o meu pai para contar, naquele momento, de forma a não dar vida às minhas suspeitas, eu deixei de querer ouvir. De imediato, tentei arranjar maneira de fugir do assunto e quando vi aquele pudim maravilho no centro da mesa, concentrei as minhas atenções nele.

— Mas que Pudim maravilhoso! Foi o pai que fez?

Tanto o Zé como o pai olharam também para o pudim e depois o meu pai disse:

— Não! Na verdade, foi aqui a vizinha Dona Celeste. Ela sabia que vocês vinham cá e por isso, ofereceu-se para fazer esse pudim que ela sabe que vocês tanto gostam.

— E parece delicioso! — disse eu.

— Pois! Mas conta lá pai. — disse o Zé. — O pai e a Dona Celeste têm…

— Claro que não! — disse o meu pai, não deixando o Zé terminar a sua frase. — Eu e a Dona Celeste somos só dois grandes amigos.

— Pois! Amigos?! — continuou o Zé. — Eu bem sei que ela passa muitas horas aqui em casa.

— A conversar! — disse o pai. — Eu e ela damo-nos muito bem.

— Vá-la pai! Pode contar a verdade! — insistiu o meu irmão. — Vocês os dois têm um caso não têm? É que se tiverem eu aprovo totalmente. Fazem um lindo casal.

— Não é nada disso José! Eu realmente tenho algo muito importante para vos contar, mas não tem nada a ver com a Dona Celeste.

— Ok?! Então se não é a Dona Celeste é outra, não é?

Com cara de poucos amigos, o meu pai olhou seriamente para o meu irmão, para ele parar de vez com essas insinuações. Depois, olhou para mim que já estava com o coração nas mãos, com receio do ouvir o que ele tinha para dizer e foi então que ele começou.

— Eu quando pedi para cá virem os dois, foi porque eu tenho realmente algo muito importante para vós contar. Algo que vocês precisam saber.

— Eu vou buscar café! — disse eu levantando-me de imediato da cadeira. — Alguém quer?

E em vez de responderem, o meu pai simplesmente agarrou na minha mão, fez com que eu me voltasse a sentar e depois, dando a outra mão ao Zé e a olhar seriamente para nós os dois ele disse.

— Fica Adelaide! Eu preciso contar e tem que ser agora. Já o devia ter feito há mais tempo, mas nunca ganhei coragem para isso. Eu imagino que vocês os dois devam estar preocupados, mas acreditem, não há razões para isso. O que eu tenho para contar não é nada de grave é só…

— Fala pai! — encorajou o Zé, enquanto que eu, com força, agarrei-me à mão do meu pai e esperei pelo pior.

— Eu conheci uma pessoa! — disse o meu pai e por momentos fiquei na dúvida se realmente tinha acabado de ouvir corretamente o que ele tinha dito, pois não era disso que eu estava à espera. Mas à minha frente, o Zé já estava com um grande sorriso no rosto por causa da boa nova e quando o meu pai virou o seu olhar para mim, é que finalmente percebi que sim, eu tinha ouvido bem. O meu pai simplesmente nos queria dizer que tinha conhecido uma pessoa e isso não era motivo para eu ficar com o coração nas mãos. Larguei a mão do meu pai, respirei fundo e disse já mais animada.

— O pai também?

— Também? — disse ele sem perceber o que acabara de dizer. — Também porque?

— É que ainda há pouco o Zé estava a dizer o mesmo.

— A sério? — perguntou o meu pai virando as suas atenções para o Zé. — Conheceste uma pessoa?

— Sim pai, mas… — disse o Zé envergonhado. — Vamos falar primeiro do pai, pode ser? Conta-nos, quem é ela? Como se chama? Eu tinha a certeza que havia mulher aí nessa história.

— Calma! Uma pergunta de cada vez! — disse o meu pai e depois, para começar a falar novamente, foi preciso respirar fundo várias vezes e foi ainda preciso olhar para a foto da minha mãe que estava pendurada na parede. Por momentos, pensei que ele lhe estivesse a pedir permissão para falar daquele assunto. Afinal de contas, desde que a minha mãe tinha falecido, o meu pai nunca tinha falado de outra mulher naquela casa. E já lá iam 12 anos. Doze anos em que ele podia perfeitamente ter arranjado outra mulher, mas que não sei porque, tinha-se deixado ficar apenas com as memórias da minha mãe. E depois, quando achou que já estava preparado para nos contar tudo, ele começou a falar. — Bem Zé! Para começar essa pessoa não é uma ‘ela’. É um ‘ele’.

Ao ouvir aquilo, tanto eu como o meu irmão ficamos chocados. Ficamos imóveis nas nossas cadeiras e apesar do meu pai ter feito uma pausa, na esperança de que disséssemos alguma coisa, a verdade é que tanto eu como o Zé, não tivemos coragem de dizer nada. Apenas olhávamos incrédulos para ele, que de seguida voltou a falar.

— Eu imagino que para vocês, isso possa parecer estranho, mas… Eu conheci uma pessoa há uns tempos atrás. Nós nos tornamos bons amigos, mas com o tempo percebemos que talvez havia mais do que amizade. Ele chama-se Alberto. Tem a mesma idade que eu e também é viúvo e…

Por momentos o meu pai parou. Percebeu, ao olhar para nós, que devia fazer uma pausa para nós conseguirmos digerir aquela informação. Eu por momentos fiquei com o meu cérebro em estado líquido. Não consegui pensar em nada e mesmo que quisesse fazer-lhe questões, não saberia o que dizer. E se eu estava tão chocada com aquela revelação, o meu irmão parecia estar bem pior e a gaguejar, apenas disse:

— Eu.. eu… não estou a perceber. O pai está a dizer-nos que é…

— Apaixonei-me! — disse o meu pai antes que o Zé terminasse o que iria dizer. — Foi isso o que aconteceu!

— Mas como? O pai é homem… — disse o Zé.

— Claro que sou! — interrompeu o meu pai. — Quanto a isso acho que ninguém tem dúvidas.

— O que eu quis dizer é que… — continuou o Zé. — O pi até gosta de futebol…

— Adoro! — disse o meu pai. — Quem me tira o futebol, quem me tira o meu Benfica, tira-me tudo.

— Mas… — continuou o meu irmão, numa tentativa parva de perceber o que dificilmente dava para perceber. — O pai sempre se comportou como um homem.

— E o que é que é ter um comportamento de homem? — perguntou o meu pai, ao que o Zé respondeu de imediato.

— O pai sabe o que eu quis dizer.

— Sim! Até sei! — disse ele. — Mas o que é que tudo isso interessa? Eu apaixonei-me. Foi isso!

— Como é que é possível? Como?

— Aconteceu!

— Como é que de repente um homem, viúvo, com dois filhos, dois netos, se apaixona assim de repente por um homem? — perguntou o meu irmão, tirando da minha boca a mesma pergunta que eu queria fazer, mas que não tinha forças para o fazer.

— E quem é que vós disse que foi de repente? — disse ele e o silêncio voltou novamente aquela sala.

Foi então que eu me lembrei. Não sei porque, mas uma memória de longe voltou ao meu cérebro que permanecia em estado líquido e eu lembrei-me de uma conversa que tive com a minha mãe, na altura quando descobrimos que ela estava com cancro. Lembro-me perfeitamente, que naquela noite, quando ela voltou com os exames na mão e na companhia do meu pai, ela fez-me a mim e ao meu irmão, sentarmo-nos naquela mesma mesa e depois, sem grandes rodeios, apenas nos disse que estava com cancro, já num estado bastante avançado. Lembro-me que o meu irmão se recusou a ouvir o resto da conversa e num misto de raiva e choro, saiu de casa a correr, fazendo com que o meu pai fosse atrás dele. Sem saber o que fazer, fiquei ali com ela. Agarrei forte na sua mão e foi então que ela disse:

— Querida! Eu já não vou estar aqui por muito tempo. Em breve serão apenas vocês e o teu pai e… tu tens que estar sempre do lado do teu pai ouviste? Promete-me que o vais compreender quando ele achar que é o momento certo par falar. Para nunca nos faltar nada, o vosso pai abdicou de toda a sua felicidade. Por isso promete-me que estarás sempre ao seu lado.

Naquele momento, prometi-lhe tudo e mais alguma coisa. Para falar a verdade eu nem tinha prestado muita atenção às coisas que ela dizia. A minha preocupação era só uma, agarrar-me a ela e não lhe deixar partir por nada deste mundo. E ela, em vez de se preocupar consigo, com o seu bem estar, parecia mais era estar preocupada com o meu pai e ainda chegou a dizer:

— O vosso pai é especial. Vocês podem ainda não terem reparado, mas o vosso aí é um homem muito especial.

 

— A mãe sabia? Não sabia? — perguntei eu ao meu pai, fazendo com que o Zé ficasse um quanto confuso.

— Sabia o quê? — perguntou o Zé e o meu pai, olhando novamente para o retrato da minha mãe, voltou a falar.

— Sim! A vossa mãe sempre soube. Eu desde pequeno que senti que era diferente. Naquele tempo, era muito complicado alguém chegar e dizer…

— Que eu sou gay?! — questionou o Zé.

— Sim! Para falar a verdade, naquele tempo essa palavra ainda nem existia. Mas enfim! Eu quando era novo, rapidamente percebi que não era delas que eu gostava. Sentia-me atraído por homens e tentei ao máximo reprimir esse sentimento. Foi então que eu conheci a vossa mãe. Não vós posso dizer que tenha sido amor á primeira vista, porque não foi. Eu e ela tornamo-nos grandes amigos, os melhores. Quando conheci a vossa mãe, ela tinha passado por um momento complicado na vida dela e foi em mim que ela conseguiu superar essas dificuldades. E para ela eu não tinha segredos. Ela sabia que eu era diferente e em nenhum momento condenou-me por causa disso. Quando nos decidimos casar, foi mais numa de brincadeira. Nem eu nem ela tínhamos aquela que química necessária entre um homem e uma mulher, mas nos nós entendíamos. Resolvemos casar, tivemos dois filhos maravilhosos e ficamos juntos até ao dia em que a maldita doença a levou para longe de nós.

Por momentos o meu pai parou o seu discurso e recuperou forças para voltar a falar. Eu e o Zé apenas escutávamos cada palavra que ele tinha para dizer e por nenhum momento tentamos interromper. Aquele era o seu momento e por muito que fosse estranho estar a ouvir todas aquelas palavras da boca dele, ele precisava falar tudo.

— Apesar de casarmos — continuou ele, — apesar dos sentimentos que eu tinha pelos homens, eu quero que saibam que eu amei muito a vossa mãe. Ela foi sem dúvida alguma a pessoa mais importante que surgiu na minha vida. O que eu sentia por ela, não foi nenhum daqueles amores carnais, mas eu amava a vossa mãe. E em nenhum momento a traia, em nenhum momento eu procurei saciar o desejo fora de casa. Sempre respeitei a ele e sempre vós respeitei. E apesar de sempre ter esse sentimento na consciência, o de gostar de homens, a verdade é que nunca estive com nenhum outro homem, senão com ele. Eu quando o conheci, tinha quinze anos, ainda nem sequer conhecia a vossa mãe. Ele era meu colega da escola e um dia, numa daquelas brincadeiras de rapazes lá acabou por acontecer algo, mas… a vida resolveu-nos castigar por isso. Ele mudou-se, nunca mais o vi e a vida deu voltas e voltas até que, quase cinquenta anos depois, a vida fez com que nós voltássemos a encontrar.

— Espera! — disse o meu irmão com os olhos cheios de lágrimas. — O pai está a querer dizer que esse Alberto era o…

— Sim! — continuou o meu pai. — O Alberto era o jovem por quem eu me apaixonei quando tinha quinze anos. Foi o meu primeiro amor. Um amor que a vida fez com que nos afastássemos e que agora, a vida fez com que nos voltássemos a reencontrar.

Dos olhos do meu irmão, vi as lágrimas a escorrer pelo seu rosto e quando dei por mim, também eu estava a chorar com toda aquela história. Só o meu pai continuava sério, sempre a olhar para o retrato da minha mãe com um enorme respeito e a sentir-se leve, bem mais leve depois de contar o seu grande segredo. Respirou fundo várias vezes, com a sua mão limpou o rosto do meu irmão e depois disse:

— Eu vou compreender se depois dessa conversa vocês me quiserem internar num hospício. Afinal eu tenho 60 anos e talvez para vocês, um velho já não tem idade de voltar a tentar a sua sorte no amor mas…

De imediato, o meu irmão agarra na mão do meu pai, agarra-lhe com força e num misto de lágrimas e sorriso, diz para ele:

— Nunca é tarde para amar!

É isso! O livro! Esse era o título do livro que estava sobre a mesa quando logo cedo tinha começado a por a mesa para o almoço. Essa foi logo a primeira pista que o meu pai tinha deixado sobre a mesa, para dizer-me que não havia razões para preocupações. E depois o seu ar de felicidade. Desde o momento em que tínhamos entrado naquela casa, via-se perfeitamente que o meu pai estava diferente. Estava mais feliz, mais leve, mais animado e eu, feito estúpida, só achava que o que ele tinha para dizer era uma coisa ruim, mas… ele só queria falar de amor. Naquele momento não pensei duas vezes. Levantei-me da minha cadeira, aproximei-me dele e sem demoras abracei-o com força. A minha mãe tinha razão quando dizia que aquele homem era especial. Ele era realmente muito especial!

Depois de o abraçar, o meu irmão não hesitou em fazer o mesmo. Juntou-se a nós e por momentos choramos, abraçamo-nos, beijei o meu pai e deixei claro que estava muito feliz por ele. Muito mesmo!

O meu pai, quando se sentiu sufocado por causa do abraço, pediu para que nos voltássemos a sentar e depois, olhando para o Zé, perguntou:

— Está tudo bem?

— Sim! — disse ele. — Não vou negar que ainda estou um pouco confuso com essa história toda mas… Eu só quero que o pai seja feliz! E eu, que já andava a começar a não acreditar em histórias de amor estou agora perante a mais bela história de amor.

— Entre o pai e esse senhor Alberto? — interrompi eu, mas o meu irmão lá continuou.

— Entre o pai, a mãe e sim, entre esse senhor Alberto. Que precisamos conhecer!

— E vão conhecer! — disse o meu pai. — Mas agora chega de lágrimas e vamos adoçar um pouco as nossas bocas, pode ser?

— Concordo! — disse eu e o Zé, antes mesmo de dar como terminada essa conversa, agarrou mais uma vez na mão do pai, beijou-lhe a mão e depois disse:

— Independentemente de tudo, eu adoro-o! Eu amo-o!

O meu pai ficou tão emocionado com aquela declaração de amor que rapidamente foram os seus olhos que se encheram de lágrimas. E antes que começasse a chorar à nossa frente, quis novamente concentrar a sua atenção naquele maravilhoso pudim que estava à espera de ser devorado. Só então é que percebeu que para além do pudim, não tinha trazido mais nada. Nem as taças, nem as colheres de sobremesa e nem uma faca para cortar o pudim. De imediato levantou-se da mesa e recusando mais uma vez a minha ajuda, foi à cozinha buscar o que faltava, deixando-me a mim e ao Zé sozinhos.

Com o guardanapo limpamos o nosso rosto tentando de inicio não cruzar o olhar, mas depois, foi impossível não olhar para ele para saber se ele realmente estava bem com aquelas revelações todas. Ele fez exatamente o mesmo. Olhou para mim e era incrível como os seus olhares diziam tudo. Naquele momento, uma das coisas que dizia era: «Vês! Andaste para aí toda stressada e preocupada para nada. Afinal era uma boa notícia!» E apesar do Zé não ter dito nada disse por palavras ele tinha razão e por isso, quando me lembrei de toda a semana em que andei em pulgas para saber o que tanto queria o meu pai contar, só tive vontade de rir de mim mesma. E foi isso mesmo que fiz. Quando dei por mim, em vez das lágrimas comecei a rir. O Zé não conseguiu conter-se e também ele começou a rir às gargalhadas. Feito duas crianças a quem tinham acabado de dizer uma piada, eu e o Zé riamo-nos às gargalhadas sem parar por causa de toda aquela situação. Quando o meu pai regressou à sala, com tudo o que era necessário para servir a sobremesa, não percebeu nada da nossa atitude. Ficou mesmo confuso e perguntou ainda qual era a piada, para ele se rir também. Foi então que eu lhe contei tudo o que se tinha passado na minha cabeça ao longo dessa semana, desde o dia em que ele tinha ligado para nós a dizer que tinha uma coisa para contar. Falei-lhe que tinha receio de que ele estivesse doente, que tivesse um cancro da próstata, um cancro no pulmão, um temor na cabeça, enfim, tudo tinha-se passado na minha cabeça. Disse-lhe ainda que estávamos a rir porque realmente, eu e o Zé tínhamos colocado a hipótese de que o pai tivesse conhecido alguém e que quisesse casar com outra mulher, mulher essa que eu e ele estávamos mesmo convencidos de que fosse a Dona Celeste, enfim! Quando contei essas coisas ele riu-se connosco. Brincamos com a situação e ainda ficamos mais felizes, quando o Zé lá acabou por contar-nos que tinha conhecido uma mulher. Chamava-se Madalena, tal como a nossa mãe e os dois já andavam a namorar há já algum tempo sem que nem eu nem o pai desconfiássemos disso. Falou-nos que até tinham planos para o casamento e o meu pai ficou super animado. Começou logo a falar em novos netos que em breve iriam chegar e… Naquele momento eu percebi que eramos felizes. Cada um de nós já tínhamos passado por diversas dificuldades, mas agora estávamos ali os três, felizes e a fazer planos para o futuro. Sim! Porque agora, com dois novos membros na família, o futuro ainda iria nos reservar muito coisa.

 

>>> E por hoje ficamos por aqui no que diz respeito a revelações, mas para a semana, temos novamente encontro marcado, com um novo episódio de EU SOU GAY. Entretanto, continuo à espera das vossas histórias. Se gostarias de colaborar com esse projeto (vê as condições de como colaborar aqui…), envia-me a vossa história (real ou de ficção) para blogeusougay@gmai.com. <<<

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