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Num só blog, está tudo aqui! O MORE tem desabafos/opiniões em relação a mim e ao que se passa à minha volta. Tem sugestões de cinema, televisão e não só. E tem mais, muito mais...

18
Nov16

Eu Sou Gay | Episódio 4 | A Resposta

EuSouGay_Episodio04.jpg

 

O silêncio incomoda-me. O silêncio assusta-me. Mais ainda quando eu lhe faço uma questão e da sua boca não saem palavras. Sei que ele ouviu muito bem a minha questão. Sei que não existe a necessidade de repetir-lhe, mas só não sei o porque desse silêncio. E isso está a matar-me por dentro. E eu até nem lhe fiz uma pergunta complicada. Para responder à minha questão, bastava apenas dizer ‘sim’ ou então dizer ‘não’. Aqui o ‘talvez’ nem sequer se põe. Fiz-lhe uma pergunta simples, com uma resposta talvez ainda mais simples, mas… ele não responde. Preferiu ficar em silêncio. Será que já cometi um erro? Um erro gravíssimo ao meter-me em coisas que não me dizem respeito? Não! Tudo o que diz respeito a ele, também a mim me diz respeito.

Enquanto que eu estava sentado na minha cama, de olhos fixos a ele e à espera de uma resposta, ele limitava-se apenas em estar sentado na minha cadeira giratória, onde girava sem parar e tinha os olhos postos no seu telemóvel. Não percebi se trocava mensagens com alguém ou se estava apenas a jogar. Seja lá o que estivesse a fazer, àquela sua atitude estava a irritar-me. Se há coisa que eu odeio, é que me ignorem. E não sei porque, depois de lhe ter feito a questão, ele passou a ignorar-me. E eu já estava farto disso! Tinha que acabar com esse silencio perturbador de uma vez por todas. E era agora. Agora mesmo!

— Não vais dizer nada?

Mais uma vez ignorou-me. Continuou na sua, sempre a girar com a cadeira e a divertir-se com o telemóvel.

— Para com isso e diz-me qualquer coisa.

— Eu preciso ir embora! — disse ele finalmente, parando de girar com a cadeira, ficando de frente para mim e arrumando o seu telemóvel no bolso, deixando-me estupefacto com a sua resposta.

— Como assim?

— Tenho que ir. — continuou — Já se está a fazer tarde.

Ele levanta-se da cadeira e por momentos, fiquei com a sensação de que ele iria sair porta fora do meu quarto, sem mais nada dizer e antes que isso realmente acontecesse, com algum esforço levantei-me da cama e meti-me frente da porta.

— Tu só podes estar a gozar não?

Ele parou mesmo à minha frente. Ficou à espera que eu saísse da sua frente para então sair, mas não, eu recusava-me a deixa-lo ir, sem que antes ele me respondesse. Sem que antes ele me dissesse um ‘sim’ ou um ‘não’, se bem que cá por dentro, eu rezava para que ele me dissesse um ‘não’ mas nada, ele não dizia rigorosamente nada.

— Eu fiz-te uma pergunta.

— Eu sei! — disse ele.

— E então?

— E então o quê?

— Não me vais responder?

Ele olhou para mim. Olhou-me nos olhos e não sei explicar, mas algo no seu olhar estava diferente. Ele estava diferente. Tão diferente que já não se importava com as minhas perguntas.

— Eu preciso ir Rui. — disse ele. — Prometi à minha mãe que hoje chegava cedo a casa. Agora se me dás licença eu…

— A sério?! — disse eu ainda mais surpreso com a sua tamanha indiferença. — A sério que não me vais responder?

Ao ver que eu quase nem conseguia equilibrar-me diante da porta, ele gentilmente agarra numa das minhas muletas e entrega-me para eu me apoiar direito. Depois, sorriu para mim. Mais uma vez disse-me para eu ficar bom o quanto antes e sempre de forma bastante educada, depois disse ainda:

— Por favor sai-me da minha frente. Eu preciso ir…

Da minha boca ele já não ouviu mais nenhuma palavra. Com o apoio da muleta, desviei-me da porta e ele de imediato abriu, não sei se era para ir embora e chegar realmente mais cedo a casa, ou se a intenção era fugir à minha questão. Seja qual fosse o motivo, a verdade é que ele estava mesmo a ir embora, mas não sem antes dizer ainda:

— Vê se descanas e depois a gente amanha fala…

E saiu. Deixando-me triste. Deixando-me confuso. Deixando-me assustado e… o que tinha sido aquilo? Porque é que ele não respondeu. Porque? O que foi que eu lhe tinha feito para ele me tratar assim, com tanta indiferença?

Eu e o Carlos já somos amigos de longa data. Muito antes de eu e ele nascermos e ficarmos inseparáveis, já as nossas mães eram as melhores amigas uma da outra. Elas tinham-se conhecido no secundário, tinham ido juntas para a faculdade, tinham arranjado namorados na mesma altura e mais tarde casaram-se, compraram um apartamento no mesmo prédio, ficaram grávidas na mesma altura e eu e o Carlos tínhamos nascido com alguns dias de diferença. Por isso, a minha amizade com o Carlos já vinha de longe. Desde que nascemos, tornamo-nos inseparáveis. E mesmo agora, que a sua mãe se tinha divorciado e arranjado uma outra casa a cerca de meia hora de distância da minha, eu e ele estávamos sempre juntos. Continuávamos a frequentar a mesma escola e desde a primária que eramos colegas de turma. Hoje, tanto eu como ele já tínhamos 16 anos. Ambos tínhamos passado para o 12º ano e apesar da amizade entre nós continuar firme como uma rocha, eu sentia. Sentia que aos poucos algo andava a ficar diferente. Não sabia se era eu, ou se era ele que estava diferente, mas… acho que era ele. E o facto de não responder à minha questão, já dava provas de que sim, ele estava diferente. E isso deixava-me confuso. Deixava-me assustado. Deixava-me triste pois ao contrário dele, que tinha uma série de outros amigos, eu tinha uma enorme dificuldade em criar outros laços de amizade. Se ele por algum motivo que fosse, desaparecesse de repente da minha vida, eu ficaria completamente só. Perdido no mundo. Sem amigos, sem conseguir respirar, sem conseguir andar, sem conseguir viver. Meu Deus! Que drama! Sim! Sou dramático! E neste momento, qualquer cenário que pinto na minha cabeça, tem sempre o mesmo resultado. Já não somos crianças. Estamos a crescer e a tornarmo-nos uns verdadeiros homenzinhos e por isso, mais cedo ou mais tarde, cada um vai para lados opostos. E a sua falta de resposta já diz isso tudo. Por muito que me custe, eu sinto que enquanto eu continue em frente para o sul, ele encontrou algo diferente e talvez melhor, lá para os lados do norte.

Ao contrário do Carlos que é o popular lá da escola e o melhor jogador de futebol, eu e o desporto nunca fomos lá grandes amigos. Por isso, já seria de se esperar que eu fosse um zero à esquerda no que diz respeito ao futebol. Sempre que possível tento evitar jogar, pois graças a ele, um dia quase parti a cabeça, já tive quase para partir o braço por ser tão desastrado no campo e no último dia de aulas, o pior realmente aconteceu. Para decidir quem era a melhor turma a jogar futebol entre o 11ºA e a minha turma, o 11ºB, foi organizado um torneio de futebol. O professor de Educação Física, que era o mesmo em ambas as turmas é que organizou tudo. Iria ser uma partida amigável, apenas para acabar de uma vez por todas com a rivalidade que sempre houve entre as duas turmas, ao longo de todo o ano. Inicialmente iria ser um jogo misto, onde ambas as equipas tinham que ter elementos masculinos e femininos, mas ninguém gostou dessa ideia do professor. Os rapazes recusavam-se jogar com as meninas, dizendo que elas só iram atrapalhar e as raparigas, não queriam perder a oportunidade de estar nas bancadas, na primeira fila, a ver os mais populares e os mais desejados da escola a jogarem futebol, de t-shirts coladas ao corpo, de calções mostrando aquelas pernas fortes e vendo-os suar, a transpirarem sensualidade e erotismo por todos os lados, pois na verdade, muitos dos mais desejados por elas da escola, estariam naquele campo a jogar. E como é óbvio, eu não estava escalado para esse torneio. Primeiro porque não era popular o suficiente, segundo porque nenhuma das raparigas estaria interessado em ver-me jogar e o mais importante mesmo é que eu não sabia jogar. Comparando com os outros elementos da equipa da minha turma, eu nem chutar a bola conseguia, mas por incrível que pareça, lá fui parar ao campo. O torneio seria de um jogo amigável – que mais à frente mostrou-se não ser nada amigável – entre cinco a cinco. O problema, é que o quinto elemento da minha turma resolveu faltar à ultima da hora e não havia mais nenhum rapaz que quisesse jogar. Todos estavam era desejosos para irem para casa, dar inicio às férias e por isso, acabou por sobrar para mim. E como por hábito, nunca recuso nada do que o Carlos pede, assim que ele pediu – ou melhor, implorou – eu lá acabei por aceitar fazer parte daquela loucura. E digo bem! Foi mesmo uma loucura! Eu fiquei na defesa na esperança de que os meus companheiros não deixassem ninguém se aproximar de mim e pelo menos, durante a primeira parte do jogo, tudo estava a correr bem. A minha equipa tinha já marcado dois golos, um deles marcado pelo Carlos. Golo esse que o Carlos festejou de maneira muito especial. Um golo que foi dedicado a alguém que estava euforicamente a assistir nas bancadas. Alguém que nem sequer era daquela escola, que nem sequer devia lá estar mas que mesmo assim, fez com que o Carlos marcasse um golo em sua honra e sim! Foi durante esse jogo estúpido que eu percebi que as coisas começavam a ficar diferentes. Foi durante esse jogo que eu percebi que tanto eu como ele estávamos a caminhar em direções opostas. E isso tirou-me do sério. Tirou toda a concentração que eu já nem tinha naquele campo, ao ponto de nem sequer perceber que de repente, a bola para por entre os meus pés. E agora? O que é que eu faço? Nem tive tempo para pensar. Quando dei por mim, o brutamontes do Beto, o popular da outra turma, aproxima-se de mim e sem dó nem piedade, dá um valente pontapé no meu pé. Sim! Em vez de acertar na bola, o brutamontes-estúpido-zarolho, acertou com toda a força no meu pé, ao ponto de fazer-me cair e a ver estrelas. Ele mais tarde, já no hospital, depois do jogo ter terminado de imediato, pediu-me desculpas e disse que foi sem querer. Mas eu não acreditei nas suas palavras. Eu não ia com a cara dele, assim como ele também não ia com a minha. Por isso, quando pediu desculpas por ter partido o meu pé, eu não acreditei nas suas sinceras desculpas. Fiquei com uma raiva dele que só me apeteceu partir-lhe todo. Graças a ele, o meu verão ia ficar completamente arruinado. E logo agora, que eu e o Carlos tínhamos tantos planos para esse verão, eu estava com o gesso no pé. Um gesso que me ia acompanhar diariamente, por todos os meus dias de férias mas… O pior não foi o gesso. O pior não foi a dor que eu senti ao ver o meu pé partido. O pior não foi a raiva que tive do Beto por me ter feito aquilo. O pior mesmo foi o Carlos. O pior foi mesmo o meu melhor amigo, em vez de ficar ao meu lado no hospital, ter optado por ficar com a pessoa a quem ele tinha dedicado o golo. O pior, foi ele não ter sido o primeiro a assinar o meu pé engessado, porque naquele dia, tinha optado por ter uma tarde diferente com alguém que não era eu. O pior de tudo, foi eu ter-lhe feito uma pergunta e ele não ter dado uma resposta. E agora? Será que ele irá continuar a ser o meu melhor amigo?

Depois do dia em que lhe fiz a pergunta no meu quarto, o Carlos praticamente sumiu da minha vida. Eu tinha-lhe feito a pergunta numa quinta e depois, apesar dele ter dito que a gente depois se falava, a verdade é que ele não apareceu mais em minha casa. Não ligou. Não mandou mensagens pelo whatsapp. Não deu sinal de vida. Nem nesse dia, nem na sexta. Nem mesmo no fim-de-semana tive noticias dele. Na segunda nada. Na terça muito menos e na quarta foi igual. Ele simplesmente desapareceu. Não deste mundo, pois através do facebook eu via que ele continuava neste mundo e a ter uma vida que aparentemente estava a ser super animada. Ele tinha era desaparecido da minha vida. Tinha-se esquecido de uma promessa que ambos tínhamos feito quando tínhamos apenas oito anos. Tinha-se esquecido de tudo e agora, só estava era na companhia desses novos amigos. Novos amigos que nem sequer eram da nossa escola. Amigos com quem ao longo dessa semana, ele tinha ido à praia, tinha ido à piscina, tinha ido ao cinema e até tinha ido ao Jardim Zoológico e retratado todos esses momentos na sua página do facebook. Enquanto que eu, no meu quarto sofria não só por causa das dores no pé, ele divertia-se sem nem sequer se lembrar que eu existia.

Houve um dia em que eu até tentei sair de casa para ir bater-lhe à porta, mas não consegui. Por muito que tentasse, eu não conseguia ajeitar-me com aquelas moletas. Estava furioso, revoltado, mas não havia nada que eu pudesse fazer. E apesar de em casa todos encherem-me de mimos, desde o meu pai à minha mãe que estavam ambos mais carinhosos comigo, desde à minha irmã mais velha, que tinha abdicado de uma semana de férias no Algarve com as suas amigas da faculdade para estar comigo, até à minha irmã mais nova, que sempre que podia, estava enfiada no meu quarto e fez-me ver com ela, todos os desenhos animados da Disney que ela já tinha visto centenas de vezes. Apesar de em nenhum momento estar sozinho, pois até o gato chato da minha irmã que me odiava, agora não parava de fazer-me visitas ao meu quarto, a verdade é que eu sempre me sentia sozinho. E sentia-me culpado por isso. Talvez se eu não o obrigasse a dar uma resposta, ele não teria fugido. Não teria se afastado. Talvez ter-me-ia dito algo naquela noite. Ter-me-ia convidado para ir a praia, à piscina ou ver os animais. Talvez se eu não tivesse perguntado, ele teria feito de tudo para me incluir nas suas férias. Teria arranjado uma cadeira de rodas se fosse preciso, apenas para ser mais fácil eu movimentar-me ou então, ter-me-ia levado às cavalitas, tal e qual como fazia quando ambos brincávamos quando eramos miúdos. Ele sempre foi mais forte do que eu. E para provar que era mais forte, muitas vezes levava-me às cavalitas até ao 3º andar do meu prédio. Um prédio que não tinha elevador e que por morar no último andar, teria que subir imensos degraus até chegar a casa. E preguiçoso como eu era, isso sempre foi um verdadeiro tormento para mim. Até hoje ainda é! Mas quando eramos crianças, eu e ele subíamos as escadas até ao 2º andar que era onde ele morava e depois, já cansado – ou a fingir que estava cansado – eu dizia sempre que não aguentava mais. Não aguentava subir mais escadas e ele, sempre sem pestanejar, pedia para eu subir às suas cavalitas e levava-me até à porta de casa. Fazíamos isso quando eramos miúdos, quando ambos tínhamos oito, dez anos. No entanto, há uns meses atrás ele fez o mesmo. Já nem me lembro porque, mas naquele dia eu estava super cansado. Estava a morrer e já nem conseguia dar mais um passo. Ao ver-me assim, ele pediu para eu subir para as suas cavalitas e sem hesitar, levou-me do rés do chão até ao terceiro andar. Em nenhum momento demonstrou estar cansado, demonstrou não aguentar mais, apesar de eu estar bem mais pesado do que quando tinha apenas oito anos, em nenhum momento ele parou para desistir de me carregar. Passo a passo ele levou-me até à porta de casa e… isso foi apenas há uns dois meses atrás. E dois meses depois tudo mudou. E tudo por causa de uma pergunta.

Quando fez uma semana certa em que ele simplesmente desapareceu da minha vida, assim do nada, ele reapareceu. Já era noite. Eu estava no meu quarto super furioso, pois para além do calor que não me deixava dormir, andava com umas comichões horríveis por causa do gesso. Por momentos, só tinha mesmo vontade de arrancar o meu pé. Não me importava de ficar manco a vida toda. Só para não ter aquelas comichões, eu agarrava num machado e a sangue frio arrancava aquele maldito pé que só estava a arruinar a minha vida. Mas tudo isso passou quando de repente ouvi o toque do meu telemóvel. Sem demoras peguei nele, pois lá bem no fundo sabia que tinha acabado de receber uma mensagem e não estava errado. Só mesmo ele é que me mandaria mensagens já passado da meia noite. Abri o whatsapp e sim, ele tinha finalmente enviado uma mensagem. Ao fim de uma semana em silêncio ele deu sinal de vida. Um sinal que se converteu numa mensagem que apenas dizia «Sim!» Sim o quê? Não percebi a sua mensagem. Será que ele tinha enviado aquela mensagem por engano? Será que ele andava a teclar com a outra pessoa e por engano, acabou por escrever-me um ‘sim’. Não percebi! Inicialmente tentei ignorar mas não consegui. Enviei-lhe logo uma mensagem de resposta.

«Sim, o quê?»

«Sim!» respondeu ele de imediato, acrescentando logo de seguida: «Sim! É a resposta à tua pergunta.»

Incrível! Uma semana depois ele finalmente responde. Responde com um simples ‘sim’. Sim esse que eu já sabia. Sim esse que eu desejava tanto ter lido um ‘não’. E apesar de aquele sim ter tido efeitos devastadores no meu coração, eu já estava à espera disso. Depois de ler a sua mensagem, engoli em seco e fiquei sem saber o que fazer. Será que lhe digo mais alguma coisa? Ma o quê? Depois desse sim, eu não sabia mais o que dizer. Só sei que agora sim, tenho a certeza a cem por cento que tudo mudou. Já nada vai ser como dantes. Eu para ele, deixei de existir. E quando achei que não haveria mais nada para dizer um ao outro, o som de uma nova mensagem assusta-me, acordando-me do meu transe. Leio de imediato a sua nova mensagem que diz o seguinte: «Estás chateado?»

Se estou chateado? É claro que estou! Ele quebrou a nossa promessa. Mas é mais claro ainda que eu não fui capaz de lhe responder assim. Simplesmente escrevi: «Chateado?! Porque é que eu havia de estar chateado?»

«Porque eu te conheço», disse ele acrescentando de seguida «talvez melhor do que ninguém e sei que esse ‘sim’ magoou-te, verdade?»

«Magoado estou eu por causa da perna» escrevi eu «Não tenho mais nenhuma razão para estar magoado.»

«Mentes», respondeu ele de imediato. E sim! Ele tinha razão. Eu estava chateado. Magoado, mas não queria de forma alguma dar-lhe a entender isso. Ainda pensei responder contestando a sua afirmação, mas não fui capaz. Estava tão magoado com tudo isso que qualquer coisa que eu escrevesse, iria simplesmente soar a mentira. Iria simplesmente fazer com que ele visse, através de uma mensagem escrita, que os meus olhos estavam cheios de lágrimas e isso eu não queria. Apesar de eu e ele sabermos que eu não era forte, naquele momento era essa a imagem que eu queria passar. Fingir que aquele ‘sim’ não me tinha afetado nem um pouco. Mas afetou-me. Por causa daquelas três letrinhas, eu vi diante dos meus olhos, o meu mundo chegar ao fim. Os meus sonhos serem rasgados como uma simples folha de papel. Tudo acabou. E agora? Eu precisava arrancar essa dor que tinha no meu peito e por isso, recusando-me a trocar mais mensagens com ele, simplesmente escrevi «Já é tarde. Estou cheio de dor. Vou morrer». Mas não! O que escrevi foi apenas «Já é tarde! Estou cheio de sono. Vou dormir.» E larguei o telemóvel na minha mesinha de cabeceira.

Que estúpido que eu fui. Porque? Porque é que eu perguntei? Do que vale perguntar algo do qual nós já sabemos a resposta? Melhor seria se eu tivesse ignorado tudo o que se passava a minha volta. Ignorava e assim, tudo se mantinha igual. Na verdade, nada ficava igual, mas pelo menos assim, acho que a dor seria menor. E porque é que ele respondeu? Ele já sabia que eu sabia. Porque é que ele ainda fez com que a minha dor fosse maior? Porquê? E com tantos porquês, agora até pareço a minha irmã Sofia que tem apenas cinco anos e a toda a hora está a perguntar o porque de tudo. Eu sei que um dia, mais cedo ou mais tarde, todos nós passamos por isso mas espero muito sinceramente que ela nunca chegue a perguntar o porque, dessa dor que a gente sente no coração, quando alguém que nós é tão próximo, afasta-se assim de repente.

E depois daquelas mensagens, o calor já não incomodou mais. Esqueci-me por completo que tinha um pé aflito de comichões. Esqueci de por o meu coração a bater, a bombar sangue pelas veias. Esqueci-me de dar ar aos meus pulmões, esqueci-me de respirar. Esqueci-me de viver e só me lembrei de morrer.

Só acordei para a vida na manha do dia seguinte. Bem! Para falar a verdade, quando acordei já não era manha. Já passavam das 13 horas quando de repente, comecei a ouvir alguém a mexer no meu computador. Achei logo que fosse a Sofia, que agora andava viciada num jogo de princesas que tinha encontrado na internet mas não, quem estava no computador não era ela. Nem mesmo era a minha mãe, que agora tinha a mania de vir procurar receitas pela internet. Eu ainda esfreguei os olhos, achando que estava a sonhar, que estava a ainda a dormir mas não. Não era um sonho.

— O que estás a fazer?

Assim que me ouviu, ele girou a cadeira para ficar de frente para mim e disse:

— Desculpa! Não te quis acordar.

Apesar de ter a certeza que não era um sonho, todo aquele momento estava a ser estranho demais. Estava a ser surreal. Eu ali, talvez ainda com ramelas nos olhos, uns olhos que provavelmente estavam cheios de olheiras, vermelhos por terem jorrado litros e litros de água durante a madrugada e ele ali, a minha frente, a mexer nas minhas coisas e pior, a ver uma pasta pessoal que eu tinha no meu computador. Uma pasta repleta de fotos. Uma pasta de fotos que me fez congelar a olhar para elas. O Carlos de imediato percebeu todo o meu constrangimento. Olhou novamente para o computador e foi percorrendo algumas das centenas de fotos que estavam nessa pasta pessoal. E depois parou numa foto. Ampliou a imagem e ficou a olhar para ela. Era uma selfie que eu tinha tirado há uns meses atrás. Uma selfie em que eu estava a fazer algo que eu não devia, algo que naquele momento me envergonhava. Algo que fez com que eu quisesse fugir dali a correr. Que fizesse com que um buraco abrisse na minha cama e me leva-se para as profundezas do inferno mas não. Nada disso aconteceu. Tive que enfrentar aquele momento. Um momento, onde na enorme tela do computador, estava uma fotografia onde eu dava um beijo na boca do Carlos. Um beijo roubado numa noite em que eu tinha ficado a dormir na casa dele e onde ele dormia que nem um príncipe. Um beijo que eu tinha feito questão de marcar para a vida toda, ao tirar uma selfie desse momento. Meu Deus! É agora que eu vou morrer!

Sem nem olhar para mim, apenas bastante concentrado a digerir aquele momento fotográfico, o Carlos passado um tempo termina com aquele momento de silêncio dizendo:

— Tens aqui muitas fotos que eu não tenho. Tens que me passar algumas delas quando puderes.

«Sim! Eu passo! Mas agora por favor, não te zangues comigo.» Tentei dizer-lhe, mas da minha boca nada saiu. Não tinha palavras para dizer-lhe seja lá o que fosse. Estava envergonhado com aquele momento, mas a situação piorou quando de repente, ele minimizou a foto e maximizou uma página do Word. Uma página que não era uma página qualquer. Era uma página com uma carta. Uma carta que em tempos escrevi, que nunca tive coragem de imprimir e nem mesmo enviar ao seu remetente. Uma carta que ele jamais poderia ter encontrado, jamais poderia ter lido mas… Ele encontrou! Ele leu! E com o scroll do rato, foi descendo, descendo por todas as palavras e linhas que eu tinha escrito, até parar num paragrafo. Um paragrafo que estava diferente. Continuava com as mesmas palavras que eu tinha escrito, mas estava diferente. Três palavras estavam sublinhadas, três palavras estavam a vermelho e a negrito. Três palavrinhas apenas que estavam em letra bem grande, ao ponto de eu, mesmo da minha cama, conseguir ler o que ali estava escrito: EU-SOU-GAY. E depois, deixando o computador com essa grande declaração estampada no monitor, gira a cadeira ficando novamente de frente para mim, pega num saco que tinha no chão e que eu ainda nem tinha reparado nele e entrega-me.

— Toma! É para ti! — disse ele esticando o saco para mim. E eu ainda estava sem saber o que dizer. Sem saber como reagir. Continuava a desejar que um buraco se abrisse no chão e me levasse para bem longe dali, de toda aquela vergonha. E ao perceber que eu nem conseguia esticar o braço para receber o seu saco, ele disse de seguida: — Vá-la! Agarra de uma vez por todas no saco. Prometo que ele não te vai morder.

E disse-o de uma forma carinhosa. A sorrir para mim. Com aquele mesmo olhar de amigo que sempre foi. Mas nem por isso eu tive coragem de pegar no saco. E ele, cansado dessa minha falta de reação, com o saco na mão, levanta-se da cadeira giratória e vai sentar-se na minha cama, mesmo ao meu lado. Agarra na minha mão, e obriga-me a agarrar no saco dizendo:

— Queres fazer o favor de aceitar esse meu presente?

«Presente?!» Porque é que ele havia de me estar a dar um presente? Não fui capaz de dizer nada, mas não tive como não agarrar no saco. E de dentro do saco, eu com todo o cuidado, com todo o medo, tiro de lá um pequeno peluche. Mas não era um peluche qualquer. Um peluche que com certeza ele tinha comprado na sua recente visita ao Jardim Zoológico. Um peluche que trazia muitas recordações. E boas. Era uma linda girafa. Uma girafa que era e sempre foi o meu animal favorito.

— E então? Gostaste? — disse ele, mas nem sequer esperou pela minha resposta. De imediato, continuou a falar. — É igualzinha à Girafa Sofia, não é?

Sim! Era igual. Igualzinha à Girafa Sofia, a Girafa que há uns bons anos atrás, a mãe dele tinha-me oferecido num dos meus aniversários e que eu não largava por um segundo. Mas isso já foi há tanto tempo. Talvez tínhamos ambos cinco anos e eu não conseguia passar um dia sem aquela girafa. Uma girafa que ao contrário do que acontecia com o Carlos, a ela eu podia contar tudo. Podia contar-lhe todos os meus segredos. Uma girafa que desde os meus cinco anos, sempre soube aquilo que eu era e sempre guardou segredo em relação a isso. O segredo foi tão bem guardado que nem mesmo na hora da sua morte, quando o cão Thomas, do Carlos, arrancou-lhe o pescoço e com os seus dentes a desfez por completo, nem mesmo nessa hora de dor ela revelou qualquer segredo que fosse. Uma Girafa que me fez chorar uma noite inteira por causa da sua morte, mas que com isso, fez com que eu tivesse dormido lado a lado com o Carlos. Numa noite triste em que ele, apesar de tão novinho, não mediu esforços para me tentar animar. Para enxaguar os meus olhos cheios de lágrimas e para encher o meu coração de amor. Uma Girafa, que um dia, quando a minha mãe disse que estava grávida, foi o Carlos que disse para eu pedir à minha mãe, que desse o nome de Sofia à minha nova irmãzinha, em homenagem a uma boneca que já havia partido há imenso tempo. E agora. Anos depois, pelas mãos do Carlos, a girafa volta à minha vida.

— Assim que a vi na loja do zoo eu não resisti — disse ele, — tive que comprar. Tinha que te dar esse presente e eu espero que gostes.

E é claro que eu gostava! Ao longo desses nossos 16 anos de amizade, o Carlos já me tinha oferecido imensas prendas, mas aquela era sem dúvida a mais especial. Tão especial que eu, apesar de achar que estava seco por dentro e já não tinha mais lágrimas para chorar, de repente as lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto a baixo. E o Carlos, ao ver essa minha explosão de emoção, não hesitou. Com a sua mão, tentou mais uma vez enxugar os meus olhos mas eu não conseguia aguentar ter ele ali, lado a lado comigo e a tocar no meu rosto. Com receio de não conseguir resistir, afastei-me da sua mão. A chorar, agarrei-me à girafa com força. Abracei-lha como se ela fosse a única coisa que eu tivesse nesse mundo mas eu estava enganado. Eu tinha muito mais. E ao afastar-me da mão que iria enxugar o meu rosto, o Carlos sem hesitar teve uma atitude que eu não esperava. Abraçou-me! Abraçou-me com força e todo o meu corpo tremeu. Mas tremeu por pouco tempo, pois logo deixei de tremer. O Carlos tinha esse efeito em mim. Quando estava com ele, nunca havia razões para ter medo. Nem nunca sequer havia razões para tremer. Podíamos estar ambos no polo norte, que eu tenho a certeza que para não me ver tremer, ele era bem capaz de me dar o seu casaco, o seu gorro, o seu cachecol, apenas para eu não sentir frio. E esse seu abraço deu-me segurança. Deu-me a certeza que afinal estava tudo bem. Sim! Para quê tremer se depois de ele ter visto as centenas de fotos que eu tinha dele no meu computador, se depois de ele ler a carta que eu tinha escrito e que destinava-se a ele, o Carlos mesmo assim estava ali, ao meu lado e a abraçar-me.

— Desculpa! — disse ele abraçando-me cada vez com mais força. — Desculpa se quebrei a nossa promessa.

Uma promessa que ambos tínhamos feito, quando pela primeira vez tínhamos beijado uma menina na escola. Tinha sido através daqueles jogos parvos que as crianças têm por norma fazer. A ele, tinha caiado beijar a Marta e eu a Mafalda. E quando chegamos a casa, arrepiados por causa dos beijos, prometemos um ao outro que nunca mais iriamos passar por aquela experiência horrível. Que jamais iriamos gostar daqueles seres estranhos que eram as raparigas. Que jamais iriamos largar um, para ficar com uma delas. Promessa essa que eu sei que foi quebrada mais cedo do que eu esperava. Com o tempo, quando começamos a crescer e os nossos corpos a mudar, o Carlos passou a gostar dos beijos desses seres estranhos. Teve algumas admiradoras, posso até dizer que teve algumas namoradas, mas era coisa que durava pouco. Uma semana no máximo. Tinha fama de conquistador e para mim, desde que ele não oficializasse realmente um romance, nenhuma das suas conquistas incomodava-me. Pelo menos até agora. Agora a promessa tinha sido quebrada mas de uma forma mesmo muito drástica.

Ao perceber que me apertava com força, o Carlos deixou de abraçar-me para que eu pudesse respirar e depois, não hesitou em continuar a falar.

— Quando há uma semana atrás tu me perguntaste se eu estava a namorar eu não respondi. Não respondi porque tive muito medo que sofresses por causa disso. E eu não quero que sofras. Em nenhum momento mas… — e um sorriso ainda mais lindo invade o seu rosto — Ela é diferente. Eu gosto dela. Ela me entende, ela gosta das mesmas coisas que eu, das mesmas coisas que nós e… tenho a certeza que tu também vais gostar dela.

Depois de abrir o seu coração e dizer que estava perdidamente apaixonado pela Patrícia, ele olhou para o monitor. O mesmo monitor que em letras grandes e vermelhas, não parava de dizer EU-SOU-GAY.

— Eu sei! — disse ele olhando para o monitor e depois para mim. — Na verdade eu sempre soube. Desde pequeno que eu soube que sim, tu eras diferente. Que sim! Tu vias-me de maneira diferente, mas não interessa. Tu para mim és o Rui. O mesmo Rui de sempre e…

E quando parou de falar, não sei o que aconteceu. Olhou para mim. Olhou-me nos olhos e sem que eu estivesse à espera, teve mais uma das suas inusitadas atitudes. Beijou-me! Mas não! Não foi um beijo na face como já muitas vezes tinha acontecido. Foi um beijo nos lábios. Sim! Ele roubou-me um beijo. Um beijo que durou poucos segundos, mas que foi um beijo. Um beijo estranho. Que logo depois deixou de haver beijo e foi ele próprio que disse:

— Estranho! Eu gosto muito de ti mas tu para mim és como um irmão que eu nunca tive. És o meu melhor amigo, és parte de mim e… esse beijo não faz sentido! Desculpa, mas não faz.

Sim! Aquele beijo não fez mesmo sentido, mas eu gostei. Foi a primeira vez que recebi um beijo. Não daqueles beijos em jogos de crianças. Foi mesmo um beijo, onde os seus lábios carnudos tocaram no meu. Onde ainda consegui sentir o sabor da sua boca, um sabor suave a menta e que eu tinha gostado mas… tinha sido mesmo estranho.

— Eu vou estar sempre ao teu lado — continuou ele — mas como amigo. Nunca mais do que amigo, entendes.

E afirmativamente eu abanei a cabeça.

— Eu não quero que sofras. E eu sei! Eu tenho a certeza que um dia tu vais encontrar um rapaz que irá encher o teu coração cheio de amor mas… desculpa. Esse rapaz não sou eu.

— Eu sei! — disse eu finalmente abrindo a boca para falar. — Na verdade sempre soube e…

— Ficas bem em relação a isso? — interrompe-me ele.

Mas aquela era uma pergunta que eu talvez não sabia responder. E em vez de dar resposta, preferi ser eu a fazer uma última pergunta.

— Posso fazer-te uma pergunta?

— Claro que sim! — disse ele. — Eu prometo responder.

Foi então que eu enchi de coragem e disse:

— Tu agora estás apaixonado pela Patrícia. Há de haver um dia em que tu vais casar. Se não for com ela, será com outra. E depois de casar, com certeza terás filhos, irás construir uma família e… será que mesmo assim tu irás ter espaço para mim na tua vida?

— O que é que achas?

Não! Não me respondas com uma pergunta, por favor!

— Se eu me casar, tu vais com certeza ser o padrinho — disse ele. — Se eu tiver filhos, tu irás ser o tio e mais, irás ser o padrinho deles e de uma coisa eu sei. Tu sempre serás da minha família.

E uma lágrima caiu do meu olho. E para provar que aquele não era um momento de tristeza, de imediato, ele com a sua mão, limpa o meu rosto e contagiando-me com o seu enorme sorriso, acrescenta ainda:

— Eu amo-te! Nunca duvides disso. É um amor diferente, mas é amor…

E essa foi sem dúvida a resposta perfeita. A melhor de todas elas. A resposta que encheu o meu coração de vida. A resposta que fez com que eu conseguisse respirar novamente. Sim! Eu sou gay e apaixonei-me pelo meu melhor amigo mas, quem é que nunca se apaixonou pelo seu melhor amigo? O importante agora, é saber viver com isso. É seguir em frente e sim, estou confiante de que tudo vai correr bem. Sim! É a resposta à minha pergunta…

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